03/06/2026

Abril de 2016, um momento conturbado da história do país: a presidenta Dilma Rousseff sofre um golpe de estado, e estudantes secundaristas ocupam as escolas reivindicando melhores condições de ensino.

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O príncipe da Dinamarca shakespeariano ganha uma releitura em Hamlet, de Zeca Brito, que combina documentário e encenação para investigar um momento conturbado da história recente do país, em 2016, quando estudantes secundaristas de do Brasil tomaram escolas reivindicando melhores condições de estudo, pouco depois do golpe sofrido pela presidenta Dilma Rousseff, afastada do cargo por um impeachment sem crime de responsabilidade. 

O crítico e teórico de cinema Jean-Claude Bernardet, ainda no começo do filme, aponta as diferenças entre a sua geração e a dos jovens que hoje, dizendo que são mais ativos em suas lutas sociais do que a dele. O que vemos na tela corrobora essa tese, e conta com a presença do jovem Hamlet (Fredericco Restori), que se torna uma espécie de liderança. Ser ou não ser líder? 

As ocupações das escolas desempenham um papel proeminente. A câmera ocupa um espaço privilegiado dentro dessas instituições de ensino, acompanhando as discussões e ações dos jovens nesse momento. Estão entre as coisas mais interessantes ver os jovens debatendo seus interesses para o futuro.

Por outro lado, o longa, feito em 2016, pode soar um tanto datado. Há um limite entre o registro de um passado e viver esse passado. O filme de Zeca Brito fica nessa linha tênue. Muita coisa aconteceu nesses 8 anos que separam as filmagens do lançamento. De Bolsonaro à reeleição de Lula, passando pela pandemia. 

A estrutura social que o longa mostra sofreu grandes pressões por vários lados. É um olhar para um passado no qual, apesar de tudo, talvez ainda houvesse um pouco mais de esperança antes dessa ser destroçada nos últimos anos. Perguntamos agora, diante do filme, quais foram as vitórias do movimento estudantil de 2016? Quem se lembra? Esses adolescentes na época, hoje adultos, onde estão? 

O olhar para o passado que o filme nos traz não é embebido na nostalgia, pelo contrário, é marcado pela urgência de um presente que não é mais o nosso. Muito vento moveu os moinhos da história. Ainda assim, observamos Hamlet com interesse, vendo que, como coloca o italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa, “as coisas precisam mudar para continuarem as mesmas”. 

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