04/06/2026

E a festa continua

Rosa é a médica veterana de um hospital numa comunidade em Marselha, perto de um local onde ocorreu o desabamento de dois pequenos prédios populares. Ela e outros ativistas, como sua futura nora, Alice, se mobilizam por esta e outras causas. Mas outros problemas familiares abalam este unido clã de origem armênia.

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Robert Guédiguian, que deve dispensar apresentações, volta às telas com E a Festa Continua!, mais um marco em seu cinema humanista, social e político que não perde o pé nem da modernidade nem do intimismo. Tarefa para os grandes, como ele indiscutivelmente o é no cinema francês, autor de obras como A Cidade Está Tranquila, Marie-Jo e seus Dois Amores e Uma Casa à Beira-Mar.  

Como sempre, trata-se de um filme-coral, coletivo, ancorado numa comunidade, no caso, em sua belíssima Marselha natal. A família central é de origem armênia - um toque autobiográfico sempre revisitado pelo cineasta. 

A tragédia que abre o filme mostra imagens de uma reportagem sobre o desabamento de dois pequenos prédios em Marselha, na rue D’Aubagne, em 5 de novembro de 2018, que causaram a morte de oito pessoas. Construções que, como centenas de outras na cidade, apresentavam problemas de conservação, saneamento e insalubridade por negligência pelos proprietários. 

Esse acontecimento mobiliza o ativismo de pessoas como Alice (Lola Naymark), uma professora de música, e a médica Rosa (Ariane Ascaride), duas mulheres cujas vidas estão para estabelecer uma ligação familiar - Alice é a noiva do filho mais velho de Rosa, Sarkis (Robinson Stévenin), administrador do tradicional café Na Nouvelle Arménie, que pertenceu a seu avô.

A apresentação formal de Alice à família de Sarkis começa com um sinal de desastre - ela é alérgica, justamente, a um ingrediente fundamental do prato típico da comunidade, uma massa com nozes e anchovas. Um problema rapidamente absorvido pelo irmão de Sarkis, o médico Minas (Grégoire Leprince-Ringuet), que prepara um menu alternativo para a recém-chegada. 

O detalhe é apenas um dos muitos distribuídos através do delicado roteiro, assinado por Guédiguian e Serge Valletti, capaz de assinalar a potencialidade de assimilação e negociação das diferenças - que está no centro da escolha dos próximos candidatos à prefeitura de Marselha, entre os quais uma das favoritas é a médica Rosa. 

Numa reunião em que se juntam representantes dos partidos de esquerda, como os Verdes, os Insubmissos, os socialistas, os comunistas e outros grupos, fica latente o recado de Guédiguian, um ex-integrante do PCF, no sentido de retratar o porquê do longo fracasso das esquerdas para vencer as eleições na França - e isto se reflete no abandono de causas sociais e políticas, das quais fazem parte a manutenção dos prédios populares e o atendimento à chegada em massa de refugiados, que também é vislumbrada num momento do filme.

Uma qualidade indiscutível no trabalho deste diretor é como ele volta sempre a um velho grupo de seus atores - além da mulher, Ariane, seus inseparáveis Jean-Pierre Darroussin, vivendo Henri, o pai de Alice; e Gérard Meylan, como o irmão de Rosa, Tônio. Ao mesmo tempo, incorpora os de gerações mais novas, como Leprince-Ringuet e Stévenin, ao lado de Alice da Luz Gomes, vivendo Laetitia, uma jovem médica colega de Rosa. Nesta soma de caras jovens e veteranas, Guédiguian monta um relato vívido, que inclui a intimidade familiar e amorosa deles, seu trabalho, sua militância e um olhar generoso para sua cidade e seus problemas - um microcosmo de nosso mundo conturbado onde podemos também nos reconhecer.

Um recurso extremamente hábil está no enlaçamento da literatura e da música A trilha sonora é assinada por Michel Petrossian, mas incorpora também Schubert, Mozart, Lizt, Berlioz, Georges Delerue e uma canção de Charles Aznavour, Emmenez-Moi, que embala uma das mais belas sequências do filme, somando seu significado ao da história, não como um penduricalho ornamental ou uma muleta de narrativa. A literatura entra pelas participações precisas de Henri, um ex-proprietário de livraria, que introduz seus trechos em momentos sublimes - inclusive em seu romance com Rosa, de uma maneira tão sutil e orgânica. 

Os personagens, aliás, são todos tão bem-construídos e humanos que dá vontade de morar no filme de Guédiguian, ao lado de todas essas pessoas, que só podem contribuir para um mundo melhor. A sequência da leitura de um manifesto por ocasião da mudança do nome da praça ao lado dos desabamentos - que ostenta uma estátua do poeta grego Homero, cuja história é tão lindamente construída nesse roteiro - é um desses momentos de antologia do cinema. Assim como a declaração final desse irresistível otimista-realista que é Guédiguian: “Devemos dizer sempre que nada acabou, que tudo começa”. Que belo brado na condução de mais esta pequena barca antifascista.

 

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