Apesar de holandesa, a cineasta Sacha Polak, com seu Névoa Prateada, se insere numa tradição britânica de cinema de classe trabalhadora, aproximando-se de cineastas com Ken Loach e Mike Leigh, mas, especialmente, das mulheres Andrea Arnold e Lynne Ramsay.
A protagonista é interpretada por Vicky Knight, uma enfermeira e atriz não profissional, que tem muito em comum com sua personagem, Franky. Ambas, aos 8 anos, tiveram boa parte do corpo queimados enquanto dormiam num pub. Por esse trabalho, Knight ganhou o Teddy Award no Festival de Berlim, um prêmio concedido a filmes de temática queer.
Franky, como sua intérprete, é uma enfermeira, e se envolve com Florence (Esmé Creed-Miles), uma jovem sobrevivente ao suicídio, que conhece no hospital onde trabalha. O encontro é uma chance para as duas tentarem deixar o passado para trás, e seguirem em frente com frescor em suas vidas. Porém, os traumas que acumulam acabam também pesando no presente.
Franky acredita que o incêndio da sua infância foi causado pela mulher com quem seu pai vive hoje, e, embora não tenha absoluta certeza disso, nutre um sentimento de vingança. Em casa, com a mãe e a irmã, a protagonista também não encontra muito conforto. Mas, no relacionamento com Florence, ela conhece Alice (Angela Bruce), mãe adotiva da namorada, e com ela desenvolve a relação de afeto maternal que não encontra em sua própria casa.
Lidando com temas densos como depressão e trauma, Polak filma com respeito e curiosidade a trajetória dessa jovem sem espetacularizar seu sofrimento, nem a transformar numa mártir. O olhar aguçado da cineasta conduz a narrativa de forma complexa, trazendo às personagens a mais profunda humanidade e caminhos de mudanças e transformação – mas, acima de tudo de uma busca pela cura de suas dores. A cineasta, que também assina o roteiro, bem sabe que é um processo lento e doloroso, mas possível.
