04/06/2026

Love lies bleeding - O amor sangra

Lou é gerente e zeladora de uma academia numa pequena cidade no Novo México. Uma fisiculturista de passagem pela cidade, rumo a uma competição em Las Vegas, matricula-se na academia, e as duas acabam se envolvendo - o que desencadeia uma espiral de violência. No Max.

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Love Lies Bleeding – O Amor Sangra, segundo longa da inglesa Rose Glass, prova que sua impressionante estreia, Saint Maud, não foi sorte de principiante. Aqui temos um talento afiado com a construção de um sentido visual e estético sem abrir mão do engajamento político e social com questões do nosso tempo. Isso tudo embalado numa forma cinematográfica bastante peculiar construída a partir de estranhamentos. 

Há muito Kristen Stewart deixou para trás a Bella do Crepúsculo, e se firmou como uma atriz interessante com escolhas arriscadas. Ela poderia estar ganhando rios de dinheiro em comédias românticas ou filmes de ação de grandes estúdios, mas nada disso pareceria combinar com ela. Aqui, mais uma vez, a atriz se destaca como a protagonista, mas encontra um talento de peso ao seu lado que, em vários momentos, rouba a cena.

Trata-se de Katy O’Brian que, embora não seja estreante, aqui se destaca de forma a certamente transformar sua carreira. Ela interpreta Jackie, uma fisiculturista a caminho de uma competição em Las Vegas que faz uma parada numa cidadezinha no Novo México, onde sua vida irá se transformar. Ela começa a trabalhar num clube de tiro, de propriedade do peculiar Lou Sr (Ed Harris).

Jackie, cujos músculos foram construídos apenas com muito exercício, determinação e disciplina, vai treinar na academia onde Lou (Stewart) é a gerente e zeladora. A atração entre as duas é imediata, e não demora muito para ela se hospedar na casa da outra. E também não demora muito para ser seduzida pelo poder dos anabolizantes. Uma escolha que acarreta não apenas transformação física, mas também emocional. 

No roteiro escrito por Glass e Weronika Tofilska, a obsessão dá o tom e gera violência. Não é algo muito diferente do que a cineasta fez em Saint Maud, mas, ao mesmo tempo, é um filme completamente diferente. Trabalhando com os tropos e cores do neo-noir, a diretora absorve e reconfigura o gênero a partir da perspectiva do amor entre duas mulheres.

A violência e sordidez, especialmente dentro de uma mesma família, lembra Killer Joe - Matador de Aluguel, de William Friedkin, mas Glass tem suas próprias cartas na manga, e são elas que transformam Love Lies Bleeding numa experiência tão particular. Quando o realismo não dá mais conta da realidade, é a fantasia que entra em cena. Há, ao menos, dois momentos muito marcantes em que as personagens se transformam para além de suas realidades. 

E nisso Glass encontra a poesia da dureza e crueza da vida dessas duas jovens num mundo dominado por homens cruéis e misóginos. É interessante também como elas invadem esse mundo, especialmente pelo culto ao próprio corpo. Como, na sociedade patriarcal, o corpo é observado e cultuado pelo olhar masculino, é transgressor que Jackie, por exemplo, deixe que seu próprio olhar (ou o de Lou) reconfigure sua fisicalidade. 

Com fotografia de Ben Fordesman e trilha de Clint Mansell, Love Lies Bleeding é um mergulho no sonho americano que se transformou num pesadelo. Situar a trama nos anos de 1980 é uma tremenda de uma escolha acertada, pois esse é o momento em que tudo foi escancarado e a ideologia já não conseguia encobrir os horrores da exploração. Glass comanda com segurança e sabe muito bem o que quer com sua narrativa, e, mais ainda, com sua estética. 

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