Prometo não cometer spoiler, mas adianto: a série Bebê Rena, da Netflix, é batutinha demais. Fotografia caprichadíssima, edição primorosa, trilha sonora bacanuda, roteiro supimpa, elenco talentoso e um roteiro que rompe tabus, à esquerda e à direita.
Richard Gadd, como Donald "Donny" Dunn, interpreta a si mesmo. É preciso ter coragem. E ele tem, misturada com alta sensibilidade.
Jessica Gunning, como Martha Scott, é fabulosa. Impressiona pelo repertório de fisionomias, pela presença física e pela fala-escrita na cadência da insanidade.
Nava Mau e Tom Goodman-Hill são afiados coadjuvantes. Isto posto, o mais relevante.
"Bebe Rena" trata da vida do artista, assombrado pelos fiascos profissionais, pela sexualidade confusa, pela insegurança, pelo medo de desagradar, pela incapacidade de lidar bem com pais, namorada e amigos de trabalho.
Um monte de gente vive assim, entre espinhos. Nós vivemos, uma hora ou outra, durante a vida. Não é fácil. E, raramente, sabemos explicar como e por qual razão nos enredamos nessa teia de dificuldades.
O fio condutor da história, no entanto, é um episódio real de "stalking" que durou três anos, a partir de 2015. Martha entrou no bar onde Gadd trabalhava e cismou que ele se tornaria o amor de sua vida.
Por atos de gentileza, medo de ferir, insegurança, baixa autoestima e apego ao elogio, Gadd piorou a situação, permitindo que o assédio se prolongasse, enfiando-se num inferno relacional.
Nesse período de stalking, Martha enviou 41 mil mensagens para Gadd. Quando conseguiu seu número de celular, deixou 350 horas de mensagens de voz.
O que tem demais nisso? As vias principais do politicamente correto, do progressismo de autodefesa, lista homens malvados como assediadores, praticantes do stalking.
Mas, não... Não existe gênero na prática desse delito, muitas vezes difícil de ser prevenido, quase impossível de ser punido.
Homens frequentemente são stalkers. Mas muitas mulheres também se empenham em perseguir, torturar, chantagear e ameaçar seus alvos.
Em pelo menos duas ocasiões na vida, fui alvo de stalkers. Apavorante! Um horror horroroso e terrivelmente terrível.
A gentileza e a cortesia comuns são logo entendidas como interesse ou abertura de porta à intimidade. Porque a stalker tende a construir mentalmente uma fantasia de reciprocidade, em que a outra pessoa apenas não sabe corresponder ao afeto.
Na cabeça tumultuada e ingênua do stalker, sua vítima também está apaixonada, mas não sabe disso, ou não tem coragem de abrir seu coração e entregar-se à paixão.
Para liberá-la desse suposto medo ou timidez, o assediador se vale de inúmeros recursos de persuasão. Oferece carinhos, presentes, elogios e atenção.
Em dado momento, se não atinge seus objetivos, no entanto, apela à chantagem emocional, ao truque sujo, à perseguição, à detratação pública e, por vezes, à violência física.
A questão é que os crimes dos homens contra as mulheres são facilmente tipificáveis. A sociedade já os conhece e está se instrumentalizando para controlar, deter e, se preciso, punir esses elementos.
No caso das mulheres, no entanto, o que existe é espessa nebulosidade. E, muitas vezes, com extrema esperteza, as stalkers acabam por virar o jogo e criminalizar suas vítimas.
Essa é uma frase terrivel de se ouvir: "se você não fizer tudo que eu mandar, vou acusá-lo de tentativa de estupro".
O que se pode fazer em casos dessa natureza? Por que a sociedade tem cerrado os olhos para esse tipo de mazela?
Em um mundo republicano, de isonomias, realmente evoluído, o gênero deveria ser irrelevante na prevenção e punição do abuso.
Texto publicado originalmente na página de Walter Falceta no Facebook.
