As imagens plácidas que abrem Às vezes quero sumir escondem a turbulência que acontece na mente da protagonista, Fran (Daisy Ridley), uma moça que enfrenta uma solidão quase patológica, num mundo marcado por laços frágeis e likes como sinônimo de afeto.
Fran vive em sua solidão sem se importar em fazer conexões com outras pessoas. É sua zona de conforto, embora a rigor não seja mesmo confortável. A questão é que ela vive há tanto tempo desse jeito, que nem sabe mais direito como se relacionar com as outras pessoas, até mesmo os colegas de escritório.
Dirigido por Rachel Lambert, inspirado em um curta de Stefanie Abel Horowitz, e numa peça de Kevin Armento, esse é um filme de delicadas sutilezas que se constroem a partir da intepretação precisa de Ridley, mais conhecida pelo papel de Rey na franquia Star Wars, que aqui prova ser uma atriz dotada de nuances numa personagem complexa e com densidade.
Fran fantasia maneiras de sumir, ou mesmo morrer. Escondida no seu cubículo no trabalho, sua mente vaga por outros lugares e situações que significam seu fim. A morte seria libertadora, e o filme nunca a julga por isso. A personagem não é exatamente uma suicida, mas uma pessoa que pensa na morte como a saída para seus problemas – embora se ela realmente partisse para a ação seria outra coisa.
Uma cena é reveladora: a festa de despedida no escritório para Carol (Marcia DeBonis), que irá se aposentar. Fran fica sempre num canto, vendo ansiosamente tudo, até que, finalmente, pega uma fatia de bolo e volta para seu cubículo discretamente.
A chegada de um novo colega, substituto de Carol, irá mudar tudo. Robert (Dave Merheje) se interessa por Fran. Ele tenta puxar conversa, mas ela não se interessa. Depois a convida para um filme, mas ela se sente desconfortável. Tudo a deixa com essa sensação, o mundo a deixa assim. Mas Robert talvez consiga penetrar na concha que a protege.
O filme evita saídas simples ou mesmo condescendência com Fran, que é uma personagem nem sempre simpática, mas também não é difícil se solidarizar com ela. Ela é uma pessoa honesta num mundo que valoriza mais a aparência do que a essência, e a sua aparência delicada e discreta não interessa aos outros. A beleza e a graça de Às vezes quero sumir está nisso: na resistência de Fran em ser ela mesma diante de um mundo que não valoriza ou se interessa por pessoas como ela.
