04/06/2026
Drama

Mundo novo

Marcelo leva sua nova namorada Cons para conhecer seu irmão e o marido deste. Aos poucos, o encontro se torna tenso quando ele pede para seu irmão ser fiador na compra de um apartamento. Nos cinemas.

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Filmado num belo preto e branco que traz um sentido de atemporalidade, Novo Mundo é um filme sobre a dita nova contemporaneidade – não exatamente pós-pandemia (embora permita essa leitura), mas sobre as relações de classe e raça em transformação no Brasil. 

Ganhador dos prêmios de atriz, para Tati Villela, e roteiro, para o diretor Álvaro Campos, no Festival do Rio de 2021, o longa se passa num único dia, um domingo, em que Marcelo (Nino Batista) vai apresentar sua nova namorada, Cons (Villela), ao irmão Charles (Kadu Garcia) e ao marido dele, Carlos (Paulo Giannini). Tudo começa de forma branda, até que logo Carlos toma o primeiro porre, vomita no quintal e as coisas começam a desandar. 

O elemento racial é colocado de forma a mostrar novas configurações do presente. Cons é uma advogada especializada em direito marítimo, muito bem sucedida e com situação financeira estável, ao contrário de Marcelo, um grafiteiro, que mora numa pensão e guarda o dinheiro que recebeu do irmão, que comprou a parte dele na casa do pai - que, aliás, serve de cenário para o filme. Uma casa enorme, construída sobre uma pedra de onde se tem uma visão privilegiada do Rio. 

A tensão se instaura quando Cons e Marcelo querem que Charles seja fiador deles para a compra de um apartamento no Leblon. Começa a desconfiança: por que Leblon? Um bairro de classe média alta. O financiamento será em 30 anos, e Charles, que trabalhar no mercado financeiro e é bem de vida, não quer participar. O filme todo gira em torno dessa discussão, que é mera desculpa para revelar preconceitos de classe e raça que permanecem na sociedade. 

Campos articula muito bem as discussões sem tornar seu filme explicitamente panfletário. Pelo contrário, ele introduz os temas por meio das personagens e situações, mostrando que mesmo uma suposta classe média esclarecida ainda se vale de seus privilégios e é calcada em preconceitos para se manter onde está. 

Ajuda muito o fato de ter um elenco competente liderado por Villela e Garcia, os polos opostos da discussão. Ela sempre na defensiva, como quem já enfrentou os mesmos preconceitos diversas vezes, e ele marcado pelo cinismo de seu discurso de “capitalista esclarecido”, liberal na economia mas conservador nos costumes, mesmo sendo gay. 

O fato de o filme de passar durante a pandemia é apenas um detalhe que acrescenta mais uma camada. O que virá a partir dali é o que se acostumou chamar de “novo normal”, embora, atualmente, esse termo tenha caído em desuso. O novo aqui não é apenas o mundo que se transforma, mas a sociedade que precisa mudar para poder seguir em frente. 

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