27/06/2026

Crônicas do Irã

Nove vinhetas mostram de forma cômica pessoas comuns no Irã contemporâneo enfrentando situações de opressão e abuso. No Reserva Imovision.

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Crônicas do Irã poderia ser o primo do Oriente Médio do argentino Relatos Selvagens, embora sem o mesmo humor cáustico, e mais concentrado na crítica social. Escrito e dirigido pela dupla Ali Asgari e Alireza Khatami, o longa consiste numa série de nove vinhetas nas quais as mais diversas figuras lidam com restrições sociais e burocracias do país. 

Há uma estrutura formal rígida. Cada segmento é composto por um plano-sequência, cuja câmera fica fixa em um dos interlocutores, a parte reclamante, por assim dizer, enquanto do outro lado (o opressor ou representante do governo, que, também, não deixa de ser um opressor), ouvimos apenas a voz. 

A primeira delas, por exemplo, chamada Davi, um pai (Bahram Ark) iraniano, quer dar o nome de Davi ao filho. O funcionário do registro civil não se conforma com isso, pois é, segundo ele, um nome estrangeiro. Por que não nomear a criança com o mesmo nome do poeta favorito dos pais? É uma possibilidade, concorda o jovem, mas ele não quer, e fica o impasse.

Em outro segmento, um rapaz (Hossein Soleymani) tenta renovar sua habilitação de motorista, mas é mandado para uma figura que irá averiguar se ele realmente pode dirigir. A situação se torna absurda quando esse homem do governo nota, por debaixo da camisa de manga comprida, uma tatuagem no braço do rapaz. Trata-se de um gazel, uma espécie de poema escrito em farsi, que, como descobrimos aos poucos, estende-se sobre todo o corpo do protagonista. Disso surge um embate.

A estrutura fixa do filme se torna uma espécie de amarra, e uma dialética truncada. É como se o lado opressor tivesse o privilégio do anonimato, enquanto as vítimas são colocadas sob holofotes. Ainda assim, há momentos extremamente inteligentes. No segundo esquete uma garotinha ruiva dança com fones de ouvido piscando numa loja. Sua mãe, uma figura da qual só ouvimos a voz, está comprando roupas para ela. Aos poucos, suas roupas ocidentais estão cobertas por uma indumentária tipicamente iraniana com shador e lenço. 

A falta do outro lado do diálogo é compreensível, uma opção dos diretores, mas, ao mesmo tempo, questionável. Abbas Kiarostami fez o mesmo em Dez, um filme protagonizado pela atriz Mania Akbari, que, em 2022, acusou o cineasta, morto em 2016, de ter se apropriado do material que ela filmara e ter assinado o filme como dele, além de também ter abusado dela física e mentalmente. 

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