É preciso uma atriz com a segurança e o talento de Karin Viard para criar uma personagem complexa como a protagonista de Disfarce Divino, Charlotte Rivière, uma chanceler de uma paróquia que descobre, após a morte de um antigo padre que, na verdade, ele era uma mulher.
O filme começa com o anúncio da morte de um padre idoso e muito querido em sua paróquia, Pascal Foucher. O médico quer entregar o atestado em mãos à chanceler que, por acaso, nota um erro, mas o médico insiste, não é um erro, o padre era, na verdade, uma mulher. Como ninguém notou nada todos esses anos? Milagre?
Primeiro filme escrito e dirigido por Virginie Sauveur, o longa parte do romance de Anne-Isabelle Lacassagne, e acompanha a jornada de Charlotte e seu embate com o arcebispo Mével (François Berléand) para revelar a verdade, o que, segundo ele, poderia destruir a Igreja Católica. Para ela, no entanto, este seria um passo rumo à modernização necessária, afinal, outras religiões já contam com pastoras, rabinas e imames mulheres.
É um tema complexo que Sauveur escolheu para seu primeiro longa. E a ideia não é mesmo trazer respostas a essa discussão quase tão antiga quanto a Igreja Católica, mas, exatamente, levantar o debate. É crucial que seja uma chanceler mulher, e não um homem. O filme levanta um debate sem ser um panfleto vazio.
Disfarce Divino, construído muitas vezes como um suspense, vai além de um filme sobre a religião, mas é sobre a opressão da mulher na religião e tradições centenárias feitas exatamente para esse mecanismo de sufocamento.
Ao mesmo tempo, o filme também trabalha a história do filho de Charlotte, Thomas (Maxime Bergeron), em busca da identidade do pai. Duas tramas paralelas que têm, ao centro, questões de gênero e suas ramificações. Ou seja, a presença da mulher na Igreja sempre em segundo plano, com decisões sempre tomadas por homens, mesmo que o tema diga respeito a elas.
A complexidade do assunto e sua abordagem secular encontram em Viard a atriz ideal na construção do humanismo de Charlotte, uma figura tomada por dúvidas, mas também um pensamento progressista que deveria servir de exemplo à Igreja Católica.
