Em 2002, a comédia nacional Avassaladoras trazia a história de uma mulher (Giovanna Antonelli) que descobria ter sido traída pelo namorado, e, depois de terminar com ele, passava o filme todo em busca de outro namorado, na figura de um colega de trabalho, interpretado por Reynaldo Gianecchini. O filme de Mara Mourão era basicamente isso: uma mulher que precisa de um homem para ser feliz, e ela não fazia mais nada. De certa forma, refletia a mentalidade da época.
Duas décadas e muitas mudanças sociais e culturais mais tarde, Avassaladoras 2.0, da mesma diretora, traz a história de Bebel (Fefe Schneider), uma jovem brasileira nascida e criada nos EUA, que passa os 94 minutos do filme só falando sobre um influencer por quem está apaixonada. Como diz o escritor italiano Tomasi di Lampedusa: “as coisas mudaram para continuar as mesmas” – ao menos no universo do filme de Mara Mourão.
Tirando as referências às redes sociais e afins, o novo filme em nada difere de seu antecessor, que, mesmo fraco como cinema, era um retrato de seu tempo. Aqui, as deficiências narrativas e visuais persistem, mas se elevam à enésima potência com sua visão anacrônica da mulher na sociedade.
Bebel se apaixona por J-Crush (Murilo Bispo), um ativista ambiental, que mora no Rio de Janeiro. Para o conquistar, ela mente, dizendo que é uma atriz em ascensão em Hollywood. Mas, quando sua mãe, a brasileira Laura (Juliana Baroni), decide vir ao Brasil, a protagonista tem a chance de conhecer pessoalmente sua paixão, mas não sabe o que fazer, já que mentiu o tempo todo para ele.
O material de divulgação do filme gosta de evidenciar o número de seguidores de Schneider - 16.7 milhões no TikTok e 7.1 milhões no Instagram, e contando –, o que, no fundo, está em sintonia com o modus operandi do presente, valorizando pessoas com alto número de seguidores em detrimento de atrizes e atores profissionais e experientes que não tem tanto poder na internet.
A jovem influencer, com sua limitação dramática, no entanto, não é a única culpada pela falta de qualidades de Avassaladoras 2.0, é claro. Coisas como os diálogos risíveis e as personagens sem qualquer profundidade, movidas apenas pelo desejo de ter um homem para chamar de seu. O roteiro, assinado pela diretora e o jornalista Tony Goes, prima por buscar um público juvenil – seguidores da protagonista, obviamente – com sua linguagem canhestramente igual à das redes sociais com suas limitações e superficialidade.
