03/06/2026
Drama

Clube dos vândalos

Nos anos 1960, o caminhoneiro Johnny cria em Chicago o Clube dos Vândalos, um grupo que reúne motoqueiros da cidade num bar, onde conversam, bebem, brigam e falam sobre mulheres. O membro mais vistoso da turma é o caladão Benny, que compra todas as brigas que consegue encarar. Na Prime Video.

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Antes de mais nada, o filme de Jeff Nichols afirma-se como um mergulho numa ideia de masculinidade nos EUA dos anos 1960, a partir de um clube de motoqueiros que, apesar de ser um produto de tudo o que constituía a época, tenta manter-se como um mundo à parte. Este clube existe como uma espécie de ilha isolada, em que a luta pelos direitos civis, a guerra do Vietnã, a cultura hippie e vários outros acontecimentos definidores daquele período dramático e turbulento ficam do lado de fora da porta,

Isso tudo, é verdade, entra como elemento de formação em cada um dos integrantes do Clube dos Vândalos de Chicago, todos eles oriundos da classe trabalhadora e resistentes à cultura intelectual e universitária, à qual a maioria deles não tem acesso e rejeita por princípio.

A inspiração do próprio clube, criado pelo caminhoneiro Johnny (Tom Hardy), veio do cinema - ele pensou nisso desde que assistiu a O Selvagem da Motocicleta na TV e viu no rebelde e niilista personagem vivido por Marlon Brando o modelo para o que seria seu clube. Um clube do Bolinha, é claro, integrado por homens de todo tipo e tamanho, mas não avesso às mulheres, embora nenhuma delas como membros - o feminismo é outra coisa que não entra pela porta do clube. Elas eram as esposas, namoradas, mães e eventualmente filhas dos integrantes do clube, presenças constantes nos frequentes churrascos e festas familiares promovidas por eles, em que nunca faltavam as diversões mais agressivas que interessavam aos machos, tipo lutas na lama. 

Uma série de regras uniam os membros do clã, nada indiferentes à violência - prova disso, suas inúmeras brigas, com punhos ou facas, contra outros grupos, com os quais eles eventualmente terminavam convivendo. Mas o princípio da solidariedade contra ataques a seus membros era bem mais radical, incluindo vinganças que passavam por agressões graves e incêndio a propriedades. 

Baseado no livro de fotos e entrevistas de Danny Lyon (no filme, interpretado por Mike Faist), o roteiro, do próprio Nichols, procura individualizar os integrantes do clube - e consegue. O foco recai sobre Benny (Austin Butler), cuja audácia silenciosa é apresentada de maneira exemplar na sequência inicial, em que ele compra uma tremenda briga com dois grandões apenas por ter recusado a ordem deles de tirar a jaqueta de seu clube num bar fora de seu território - e ele diz que prefere morrer a fazer isso. Butler repete aqui seu estilo sutil de interpretação, como visto em Elvis (2022), criando um personagem marcante até quando não diz nada - mas como ele age!

O fato de que o clube seja um nicho de masculinidade é de algum modo subvertido pela escolha de uma mulher como narradora, Kathy (Jodie Comer) - numa interpretação saborosa e rica em nuances, começando pelo sotaque. Esposa de Benny, ela participou por dentro do auge do clube, que teve em Benny um de seus membros mais notáveis e que o próprio Johnny queria tornar seu sucessor - intenção à revelia de Benny, um individualista cujo pertencimento a um coletivo parecia uma contradição em si mesmo. 

A narração de Kathy cria um fio temporal que mostra as mudanças que, inevitavelmente, se imporão sobre o clube a partir do momento em que se ampliam seus quadros e fronteiras, incorporando novas sedes por todo o país. Neste processo, fatalmente, irão se perdendo os valores iniciais - despojados de qualquer espécie de heroísmo, aliás. Embora não raro arruaceiros perigosos, os Vândalos não queriam mais do que ser deixados em paz com suas diversões barulhentas, com suas motos, bebedeiras e brigas. Armas eram raridade em seu cotidiano. 

Eles são, inegavelmente, da classe trabalhadora, mas o filme não quer discutir sua existência em termos políticos. Nichols não almeja essa profundidade e talvez não tivesse mesmo condições para isso. Mas é sensível para o fato que aponta, como o individualismo quase ingênuo dos Vândalos acabou sendo engolido por uma violência cada vez maior na sociedade norte-americana, a partir do momento em que passou a ser integrado por veteranos da guerra da Vietnã, que voltavam do front mentalmente doentes ou viciados em drogas, e por garotos desajustados de famílias disfuncionais bem mais diretamente mergulhados numa criminalidade muito mais letal, com o uso de armas de fogo. 

Cinematograficamente, o filme deve muito de seu ritmo à montagem ágil de Julie Monroe e, no final, recorre a algumas das excepcionais fotos de Danny Lyon para retratar os Vândalos reais.

 

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