Quem poderia imaginar que o diretor de O declínio do império americano e As invasões bárbaras seria capaz de fazer um filme tão reacionário como Testamento? Disfarçado de sátira social, o cineasta quebequense aponta o dedo (do meio) a minorias e grupos oprimidos, narrando a história do ponto de vista de um homem de 80 anos que vive numa casa de repouso.
A disputa de narrativas do filme coloca todos os grupos minoritários ou militantes como ridículos e destituídos de razão em suas lutas. A única pessoa correta aqui, segundo o longa, é o protagonista, Jean-Michel Bouchard (Remy Girard), um discreto escritor cheio de opiniões sobre mulheres, minorias e afins. O problema é que, no filme, ele é o herói, e não há o mínimo de discernimento crítico recaindo sobre ele.
Numa das primeiras cenas, ele vai a uma premiação literária, na qual será agraciado com um troféu por sua idade. Todas as ganhadoras nas outras categorias são estereótipos de mulheres: da lésbica machona à ninfomaníaca desconstruída que quer falar sobre sexo em seu discurso de agradecimento. Todas, aliás, aviltam o pobre Bouchard por ele ser um homem.
O filme segue nessa raiva misógina com a diretora da casa de repouso, Suzanne Francoeur (Sophie Lorain, excelente, num papel ingrato). Ela é uma mulher infeliz e reprimida que desconta tudo isso sendo fria, sem amigos, não se deixando tomar por sentimentos. Ora, adivinhe quem poderá mudar isso na vida dela. Sim, claro, o homem protagonista, pois, no fundo tudo isso que ela sente é por causa que lhe falta um homem para chamar de seu.
Em outro fio, no meio do filme, surge um grupo de jovens protestando na porta da clínica. Com roupas típicas das primeiras nações – ou povos originários, como costumamos chamar – eles se manifestam contra um mural que existe dentro da instituição, representando o primeiro contato entre franceses e povos originários do Canadá. Arcand mostra esses jovens protestantes, que não são descendentes dos povos das primeiras nações, como ridículos, histéricos e inócuos em suas demandas. Ao conseguir seus objetivos, eles planejam um novo protesto, dessa vez em frente a um teatro onde há uma montagem de A alma boa de Setsuan, uma peça escrita por um homem branco, Bertolt Brecht, sobre uma mulher chinesa interpretada por uma atriz também branca. O diretor faz questão de ressaltar o ridículo disso tudo.
Arcand pode estar perguntando algumas das questões certas, mas de forma incorreta e a resposta que ele dá é a pior possível. É como se ele tomasse, com gosto, o lado da extrema-direita contemporânea, promulgando fake news e ridicularizando qualquer um que não se encaixe em seu grupo. O cineasta já anunciou que este será seu último filme, e é um triste testamento para uma carreira que, no passado, lidou de forma sagaz como temas progressistas.
