Diretor do premiado Alice Junior, Gil Baroni partiu para uma investida bastante radical neste novo filme, uma ficção que explora um clube secreto de crossdressers, vários deles militares, durante a ditadura militar, nos anos 1970.
O roteiro, assinado por Luiz Bertazzo, tem como inspiração uma história real, mas não ambientada no Brasil. Trata-se de Casa Susana, livro que rendeu uma adaptação teatral, e gira em torno de uma investigação nos EUA a partir da descoberta de uma caixa de fotografias numa pequena cidade. As fotografias mostravam diversos personagens locais vestidos de mulher, o que serviu como guia da fotografia do filme de Baroni, assinada por Renato Ogata e que transmite um assumido tom nostálgico, inclusive na janela do filme, mais estreita, assemelhando-se ao formato das fotos antigas, quadradas.
Uma das referências à ditadura na história é o fato de a cozinheira da casa, Dalia (Laura Haddad), ter um filho desaparecido e, por isso, ela aprisionou num quarto dos fundos um homem que apareceu ali espionando - e que ela julga ter notícias sobre seu filho. Estas referências visam produzir realmente uma reflexão sobre os dias de chumbo. O interesse da história está mais centrado nestes homens vestidos de mulheres e atormentados por questões bem pessoais, como a decadente dona da casa, Izabel, interpretada pelo veterano ator Luis Melo.
Um clima de estranheza percorre o filme todo, nesse ambiente que é projetado para ser visto como uma ilha à parte do mundo em que ele se insere, em que transbordam os conflitos destas pessoas que compartilham um único hábito extraordinário - vestir-se de mulher - mas carregam consigo outras diferenças de difícil expressão, tendendo à explosão neste huis clos de atmosfera quase teatral.
No Cine PE 2022, Casa Izabel foi o grande vencedor, arrebatando os prêmios de melhor filme, melhor ator (prêmio coletivo de elenco), melhor ator coadjuvante (prêmio coletivo de elenco), direção de arte (Laís Melo) e trilha sonora (Jean Gabriel e Fábio Perez).
