Lea Freire pode não ser um nome conhecido do grande público – não por conta da excepcional qualidade de sua arte, mas, evidentemente, por causa de uma narrativa elitista (não criada por ela, obviamente) que distancia as pessoas de uma música mais elaborada ou sofisticada. O que é uma pena, pois boa parte do público está perdendo a chance de conhecer o trabalho de uma grande musicista brasileira.
O documentário de Lucas Weglinski (um dos diretores de Máquina do Desejo - 60 Anos de Teatro Oficina), não tem a ambição de a levar para um grande público – afinal, documentários são um nicho quase tão restrito quanto a música erudita -, mas cumpre com louvor a missão de resgatar a trajetória da artista, que a narra em primeira pessoa, além de trazer entrevistas com amigos e colaboradores.
Está tudo lá, do início da carreira aos desafios, como o de se destacar como mulher num universo marcadamente masculino, ou sua posição particular na música brasileira. "Para o choro, eu sou do jazz; para o jazz, eu sou do choro", diz no filme. O documentário desvenda tudo isso de forma acessível.
Fora o trabalho como musicista, o que mais chama a atenção sobre Lea é também seu empenho social de usar a música como uma ferramenta de transformação. Na juventude, ao lado de Alaíde Costa e Filó Machado, ela fez parte de um projeto que levava música a prisões juvenis. Hoje, integra o Projeto Guri, que tem como missão levar educação musical, que eventualmente se transforma numa profissão, para jovens no estado de São Paulo.
Essas questões são bem retratadas pelo filme, que destaca a importância de projetos dos quais Lea participa até hoje. A música não serve apenas para agraciar os ouvidos burgueses em salas eruditas, mas pode servir como ferramenta de transformação social e libertação do oprimido, como bem mostra o longa.
