04/06/2026
Comédia

Pequenas Cartas Obscenas

Numa cidadezinha litorânea inglesa, Littlehampton, Edith Swan é tida como um modelo de cidadã e mulher. Solteirona, vive com os pais idosos e disparando frases da Bíblia. Por isso, quando ela começa a receber cartas obscenas, a principal suspeita é sua inquilina e vizinha, a irlandesa Rose Gooding - que tem comportamento livre e é desbocada. Pior, Rose vai ser julgada e pode ser presa e perder a filha. Na Amazon Prime (a partir de 27/1).

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Pequenas Cartas Obscenas é o tipo do filme capaz de encantar pelo zelo em explorar suas contradições e também pela dupla de protagonistas, as talentosas Olivia Colman e Jessie Buckley. Elas interpretam opostos absolutos nesta comédia dirigida por Thea Sharrock, que mergulha fundo em algumas das mais, até agora, incuráveis tendências do ser humano: a hipocrisia e o moralismo quando confrontados com os espíritos livres. 

O moralismo hipócrita é a identidade de Edith Swan (Olivia Colman), uma solteirona que vive com os pais (Gemma Jones e Timothy Spall) numa cidadezinha litorânea inglesa, Littlehampton, em meados dos anos 1920. 

Modelo de filha e cidadã, Edith é educada e gentil, inclusive para com sua vizinha e inquilina, a irlandesa Rose Gooding (Jessie Buckley), que é seu total oposto, ou seja, uma mulher totalmente livre. Viúva de um soldado morto na I Guerra, ela vive com sua filha pequena, Nancy (Alisha Weir), e o novo companheiro, Bill (Malachi Kirby), um trabalhador negro. E não dá a menor bola para as caras feias na cidadezinha diante não só de sua situação marital, como de seu comportamento aberto, disparando palavrões com a mesma generosidade com que toma uns bons goles no bar local, lotado de homens. 

Cristã fervorosa, Edith parece convencida de que domará os modos turbulentos de Rose, de quem até se torna amiga - inclusive em função da proximidade de quem tem que compartilhar o mesmo banheiro no quintal.

Mas a coexistência pacífica entre as duas chega ao fim quando misteriosas cartas altamente obscenas começam a chegar à casa de Edith - e a suspeita natural, pelo linguajar de cais do porto, é Rose. No ambiente tacanho da cidadezinha, onde todos se conhecem, não há exatamente uma investigação - trata-se, antes de tudo, de julgar apressadamente as pessoas pelo que aparentam. Assim, o inspetor Spedding (Paul Chahidi) logo manda prender Rose que, se condenada, poderá perder a guarda da filha.

Tudo se encaminha para a condenação inapelável de Rose, enquanto Edith se torna uma espécie de heroína nacional, já que o caso alcançou repercussão muito além de Littlehampton - e a animosidade contra os irlandeses tem tudo a ver com isso, fora o fato de que Rose é uma mulher que afronta tudo que se espera de uma boa moça e uma boa viúva. 

Contra essa onda dominante de hipocrisia machista, ergue-se a figura de uma aspirante a detetive, a policial Gladys Moss (Anjana Vasan), que se propõe a investigar o caso com um pouco mais de rigor. Ela mesma, no entanto, tem sua própria cota de preconceitos a superar: não só é uma mulher, numa época em que não havia policiais femininas, e é de origem indiana. Racismo e machismo, portanto, são coisas que ela também conhece a fundo, assim como Rose num outro contexto.

Mesmo ameaçada de punição pelo chefe, Spedding, Gladys empreende sua própria investigação particular em torno das cartas, contando com a desconfiança de algumas poucas mulheres da cidade quanto à culpa de Rose. Nesse segmento, o filme cresce muito e desperta a maior torcida para que haja salvação para a moça. 

Embora o enredo se passe há cerca de 100 anos atrás, ele se inspirou em fatos reais, e pode-se facilmente imaginar que histórias parecidas continuem a acontecer ainda hoje - quando a tecnologia criou redes sociais capazes de espalhar calúnias e ódio de uma maneira ainda mais avassaladora do que as cartas. E também não muda a irresistível atração despertada pelos espíritos livres quando ousam enfrentar o mofo da hipocrisia moralista diante da vida.

 

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