03/06/2026
Drama

Agora ou Nunca

post-ex_7
Em Agora ou Nunca, fica evidente não apenas o dedo mas a mão inteira do inglês Mike Leigh. As performances são irretocáveis e dão vida a personagens de carne e osso, cuja humanidade é exposta com devastadora nudez. Pílulas do cotidiano de algumas famílias do subúrbio inglês vão sendo apresentadas ao espectador. Distanciado como um mero voyeur, ao contrário de ver-se identificado na tela, ele observa aquela realidade como um todo. A tática pode tornar menos interessante o início da fita, já que nessa parte as ações não fazem a trama avançar, mas a recompensa vem logo. O diretor vai refletir sobre a dificuldade de sobrevivência em uma Londres assolada pelos subempregos e pela conseqüente falta de perspectivas.

Ao final de todas as semanas, o taxista Phil Bassett (Timothy Spall) tem de pagar à central o aluguel do rádio pelo qual é informado sobre a localização de passageiros. Como nem sempre dispõe da quantia, não raro tem de render-se à má vontade da esposa, Penny (Lesley Manville), caixa em um supermercado. Mais apáticos ainda são os obesos filhos do casal, Rachel (Alison Garland), que trabalha como faxineira em um lar para idosos, e Rory (James Corden), que divide o tempo entre bater nos meninos menores e ver televisão.

No mesmo conjunto de prédios vivem o casal de alcoólatras Carol (Marion Bailey) e Ron (Paul Jesson), além da filha Samantha (Sally Hawkins). A moça não trabalha e tampouco está interessada em empregos de garçonete ou arrumadeira. Ela prefere azarar o namorado da vizinha, Donna (Helen Coker), filha de Maureen (Ruth Sheen), sarcástica colega de trabalho de Penny.

Além da condição social, o ponto de convergência entre todos os personagens são os sentimentos de solidão e de desilusão. Em um dos momentos mais iluminados do filme, Phil diz que se acordasse sabendo o que aconteceria não teria forças para levantar da cama. A motivação para preencher o tempo, que lhe parecia interminável e inútil, com a dedicação integral ao trabalho, só emerge quando promete ao filho, por algumas circunstâncias, uma viagem à Disney.

No filme, também é curioso observar como o dinheiro prostitui as relações e, num plano mais íntimo, o próprio ser humano. Em outro diálogo, o taxista relata à família um episódio ocorrido durante o trabalho e conclui: "Não aceitei o dinheiro do passageiro por questão de ....". Sem lembrar a palavra, recorre à filha que esclarece sua dúvida: dignidade. Também a palavra insuportável não faz parte do vocabulário do personagem, mas aí a perspectiva é um pouco mais otimista. Por mais difícil que sejam as vidas dos personagens, é possível continuar lutando e sorrindo quando se encontra ou se recupera o amor.

Cineweb-21/8/2003
post