Ken Loach amarra as pontas que unem refugiados sírios e mineiros britânicos desempregados no sensível O Último Pub, que competiu no Festival de Cannes 2023 - e que o veterano diretor de 88 anos prometeu que seria seu último filme. Tomara que não.
Mais uma vez apoiado num roteiro do parceiro Paul Laverty, Loach fala de política a partir de um enfoque humanista, elegendo como cenário um local de reunião de todas as pessoas, ou seja, um pub, onde se vai para beber, conversar, reclamar, namorar, socializar. Um lugar de encontros e conflitos, que é o oposto do isolamento, da solidão, da divisão.
Muito divididos, no entanto, estão os habitantes da cidade do norte da Inglaterra, onde fica este pub, O Velho Carvalho, do afável TJ Ballantyne (Dave Turner). A cidade já viveu melhores dias, quando funcionavam as minas que davam trabalho à maioria dos homens locais. Seu fechamento levou à decadência do lugar, que foi sendo gradativamente abandonado por todos que encontraram alguma oportunidade fora dali. Quem ficou foram os velhos e os desempregados, sem opção, circulando numa paisagem desolada de lojas fechadas e casas vazias.
Estes imóveis vazios estão sendo destinados agora aos refugiados sírios que, fugindo da guerra, desembarcam onde podem, em busca de sobreviver. A chegada destas pessoas, que recebem algum tipo de subsídio mínimo do governo britânico, cria animosidade entre alguns moradores locais, que não tardam a exercitar uma veia racista e xenófoba que é estimulada pelos políticos de extrema-direita nas redes sociais.
Um destes racistas entra em choque com uma jovem síria, Yara (Ebla Mari), quebrando a máquina fotográfica com que ela registra exaustivamente as memórias do que vive, do que trouxe do país natal e deste em que ela espera encontrar algum futuro. Ela busca consertar a máquina e acaba fazendo amizade com o dono do pub, que é uma espécie de embaixador da boa vontade, tendo a compreensão de que há muito mais em comum entre os refugiados sírios e os trabalhadores britânicos do que muitos deles pensam.
Não há nenhuma ingenuidade nesta posição do filme, em que Loach denuncia como as políticas dos últimos governos conservadores britânicos esvaziaram de recursos públicos cidades como esta, antes um ativo foco de trabalho e sindicalismo, lançando seus moradores na pobreza e no desalento. Com sindicatos enfraquecidos, estes trabalhadores têm poucos lugares onde se ancorar e o pub é um deles. Melhor ainda que seja um pub onde alguma atividade social pode ser retomada.
A realização de um evento no bar, que une sírios e ingleses, fazendo suas comidas típicas para ver as fotos que Yara fez dos moradores locais, é o ponto alto do filme, que não dá recurso a nenhuma pieguice nem idealização açucarada. Cada uma destas pessoas é retratada em sua complexidade, mas deixando aberta a porta a olhar o outro de um modo descontaminado de preconceitos. Aí sim a humanidade pode se reorganizar para fazer um mundo melhor.
Como em outros filmes, Loach coloca no centro de sua história um cenário de socialização e festa, aqui no caso o pub. No filme A Parte dos Anjos (2012), este lugar era uma destilaria, e em Jimmy’s Hall (2014), um salão de danças. Comer, beber, dançar também são formas de aproximação e até de chegar à política.
