Lily Bloom, personagem de Blake Lively, protagonista de É assim que acaba, tem uma floricultura. Mas não é uma floricultura qualquer, é uma loja gourmetizada com mais cara de antiquário do que floricultura. Um pequeno buquê com meia-dúzia de flores velhas, secas e feias custa 51 dólares, como é claramente mostrado numa cena. É mais ou menos essa a visão de mundo do filme, um mundo gourmetizado e artificial, mesmo que seja para falar de temas bem sérios.
O enredo baseia-se no livro homônimo de sucesso de Colleen Hoover, autora que, no ano passado, foi duramente criticada por querer lançar um livro de colorir baseado em seu romance sobre abuso e violência doméstica, que é exatamente a história do filme. No longa, Lily cresceu vendo sua mãe ser espancada pelo pai.
A trama começa com a morte do pai (Kevin McKidd), e Lily voltando para casa depois de anos, para consolar a mãe, Jenny (Amy Morton). Pouco depois, de volta a Boston, onde mora, ela está no telhado de um prédio aleatório – não é onde ela mora – quando conhece Ryle (Justin Baldoni), um neurocirurgião que chega lá para chutar uma cadeira e descontar sua raiva. Depois de um tempo de flerte, ele precisa ir embora, fazer uma cirurgia de emergência.
Tempos depois, se reencontram, pois ele é irmão de Allyssa (Jenny Slate), uma mulher rica e empolgada que pede emprego a Lily para matar o tempo – aparentemente, não há desemprego, nem gente, realmente, precisando de trabalho no universo onde se passa a história de Hoover. Aliás, parece mesmo um mundo paralelo onde todos têm dinheiro e sobem na vida por meritocracia. Um adolescente sem-teto, anos depois, na mesma Boston, tem um restaurante hipado.
Esse, aliás, é Atlas (nos flashbacks interpretado por Alex Neustaedter, enquanto Lily é feita por Isabela Ferrer), que foi o primeiro grande amor da protagonista, quando ele morava na casa abandonada em frente à casa dela. Agora, por acaso encontra o rapaz (Brandon Sklenar) morando na mesma cidade que ela, e fica dividida, embora esteja bastante envolvida com Ryle.
É assim que acaba é um filme pensado para fazer emocionar. Na sessão para a imprensa, distribuíram lencinhos de papel, o que é um exagero. Tudo é meio artificial e gourmetizado demais para conseguir extrair alguma emoção genuína. O que ele tem a dizer, no entanto, é algo válido: que as novas gerações de mulheres não aceitam comportamentos tóxicos, abusivos, violentos como suas mães se viam obrigadas a aceitar. É um preceito nobre esse do longa, mas é entregue numa embalagem cinematograficamente frágil, repleta de incongruências e exageros risíveis. O que torna o filme minimamente tolerável é o carisma e a doçura de Blake Lively.
