Veterano cineasta baiano, José Umberto tem em sua filmografia o excelente O Anjo Negro, seu filme de estreia em 1968, no qual a chegada da figura mítica do Calunga numa mansão desmantela as estruturas daquela família e a hipocrisia burguesa. Revoada - Última vingança do cangaço, seu longa de 2015, que chega aos cinemas só agora, tem um apelo imagético bastante forte, como no outro longa, embora sua narrativa não flua da mesma maneira suave.
Esse é um longa um pouco mais convencional, se comparado à criatividade indomável do primeiro filme do diretor. É um filme estranho e de estranhamentos, que remete a um cinema de outros tempos. Cangaceiros são figuras particularmente brasileiras, mas que se inserem em tradições de foras-da-lei universais, como nos faroestes.
No filme, também roteirizado pelo diretor, há um grupo de cangaceiros formado por duas mulheres e oito homens, que perde seu rumo ao saber da morte de Lampião. Ficam divididos entre seguir em frente ou vingar a morte da figura de liderança. Entregar-se aos macacos, como são chamados os volantes que perseguem o bando, também é uma opção. Ou seja, eles realmente não sabem o que fazer.
A partir do peso moral dessas escolhas, o grupo se fratura, especialmente por conta de sua juventude e ingenuidade. Resta ainda um ideal quase romântico sobre seus papéis e posições na sociedade. O filme acompanha, então, essas pessoas em suas divergências e ações desgovernadas.
José Umberto realiza um filme colorido e com um olhar curioso sobre a questão do cangaço e a importância das figuras de Lampião e Maria Bonita. A juventude dividida, mas sempre marcada pela violência, pode refletir-se no presente das periferias brasileiras. Nem tudo funciona no longa, mas há, de qualquer forma, uma grande paixão pelo tema e pelas figuras do cangaço.
