Estréia na direção da atriz e modelo Zoë Kravitz, este suspense/terror inspira-se claramente em filmes recentes, como O Menu, de Mark Mylod, ou Triângulo da Tristeza, de Ruben Ostlund, ao ambientar sua trama num ambiente isolado, uma espécie de ilha de luxo, onde a realidade colorida e divertida encobre um sentido mortal.
Na primeira parte, até que funciona e com sentido cômico, a aventura vivida pelas garçonetes de bufê Frida (Naomi Ackie) e sua amiga Jess (Alia Shawkat) quando são inusitadamente convidadas para conhecer a rica propriedade de um milionário de tecnologia, Slater King (Channing Tatum).
É compreensível e mesmo divertido o deslumbramento das duas com o ambiente paradisíaco, no meio da natureza, entre quartos luxuosos, figurinos que, inexplicavelmente, servem-lhes à perfeição - assim como às outras convidadas -, além de bebidas a rodo e jantares sofisticados. O milionário dá sinais de estar correspondendo ao flerte de Frida, que se derrete por ele. As únicas pistas de que há algo errado surgem quando uma empregada da propriedade (Maria Elena Olivares) começa a falar coisas estranhas em outra língua e é vista capturando imensas cobras pelo lugar.
Uma delas, aliás, acaba picando Jess e a reação do dono da casa e seus convidados é muito anormal - ninguém parece assustar-se com isso, dando início à virada de clima que, finalmente, começa a deixar Frida em pânico. Especialmente quando (atenção, spoiler) sua amiga desaparece.
É visível que o roteiro, assinado por Zoë e E.T. Feigenbaum, quer preparar o cenário de uma espécie de guerra de sexos, colocando de um lado mulheres alienadas - com exceção de Frida e de Sarah (Adria Arjona) - diante de homens aparentemente gentis e divertidos, como o próprio Slater, Vic (Christian Slater), Tom (Haley Joel Osment) e Cody (Simon Rex), que cozinha os acepipes.
Quando ficar claro que jogo de horrores e abusos está sendo clandestinamente jogado neste cenário paradisíaco, a guerra será declarada, com uma vingança sangrenta sendo colocada em funcionamento - e aí cenas gráficas de montão ocuparão estes gramados, antes tão milimetricamente aparados, com esta piscina tão límpida tendo sua água manchada de sangue.
Mais complicado de aceitar é o final incongruente para toda essa fantasia macabra - que aliás pretende ser cínico e engraçadinho. Neste e em outros quesitos, os citados filmes de Mylod e Ostlund deram-se bem melhor.
