03/06/2026

Proibido a Cães e Italianos

O diretor francês Alain Ughetto resgata as memórias de seus avós italianos, Luigi e Cesira, compondo um diálogo imaginário com sua avó, que recorda a trajetória de uma família do Piemonte, forçada a imigrar para a França e Suíça em busca de trabalho, com sua vida cortada por acontecimentos como guerras e a eclosão do fascismo. Nos cinemas.

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O diretor francês Alain Ughetto tece um denso fio de memórias sobre a imigração italiana a partir deste relato em animação, em que imagina um diálogo entre ele mesmo e sua avó italiana, Cesira. O uso da técnica stop motion adiciona uma camada extra de nostalgia  a uma narrativa que se nutre de minuciosas pesquisas, prendendo-se à verdade histórica, e transcende a fronteira das recordações familiares. A ideia do diálogo é acentuada por algumas interações entre os personagens e o próprio Alain, que é visto apertando-lhes a mão ou devolvendo-lhes uma ferramenta. 

O cenário inicial é a aldeia Ughettera, no Piemonte, origem desta família que se deslocou pela França e a Suíça em meados do século XX, em busca do trabalho que escasseava no amado e nevado local de origem. Luigi e Cesira, avós do diretor, conduziam o pequeno clã de muitos filhos que, para serem alimentados, dependiam das constantes viagens do pai para trabalhos itinerantes, como os túneis e estaleiros entre os países.

Os italianos eram muito requisitados no exterior como mão-de-obra barata, versátil no manejo de todas as tarefas e flexível diante das exigências. Eram pedreiros, cavadores, carpinteiros, o que fosse. Aceitavam e aprendiam toda e qualquer função e toleravam os preconceitos dos que os tratavam de “fils de pute de macaroni” ou anexavam à porta de um café os dizeres indignos que dão título a esta animação.

Esta resiliência, que se manifestava inclusive na resistência ao frio de sua aldeia natal, alimentava-se também de uma profunda solidariedade mútua, além de um sentido de humor, festa e afeto que são a própria essência da identidade italiana.

Além do desemprego endêmico, outras pragas assolam a vida do clã Ughetto e seus parentes e amigos: as guerras, como da Líbia em 1911, e a I Guerra Mundial, em 1915, para cujos fronts os camponeses são inapelavelmente convocados e dos quais muitos não voltam; a gripe espanhola de 1918, que matou ainda mais do que a I Guerra; e o fascismo. Uma das razões pelas quais os piemonteses migravam era também a busca de escapar dos abusos fascistas, que incluíam espancamentos, estupros e toda forma de autoritarismo. 

A II Guerra, afinal, colhe a família Ughetto já radicada na França e de posse de seu sonhado terreno, onde nasce a fazenda Paraíso. Mesmo que seus membros não vão para o front, a guerra custará seu preço. Nacionalizados todos os italianos em 1939, eles agora eram parte de um contexto em que o governo francês de Pétain se torna colaboracionista com os nazistas. Recusando-se a prestar serviços na Alemanha, Vincent, filho de Luigi e Cesira, pai do diretor do filme, torna-se membro da Resistência.

Todos estes episódios formam um todo orgânico, em que o uso de arquivos sonoros históricos acrescenta uma consistência exemplar, enfatizando o aspecto documental da narrativa, em que se mesclam os pontos de vista individuais. Por esse engenho na formatação do filme, ele recebeu vários merecidos prêmios, como melhor longa de animação no European Film Awards e Prêmio do Júri no Festival de Annecy. Foi o filme de encerramento do Festival É Tudo Verdade e integrou a programação da Festa do Cinema Italiano. 

O uso da animação como relato documental, aliás, vem-se mostrando cada vez mais eficaz, lembrando-se os casos de Valsa com Bashir, de Ari Folman, Persépolis, de Marjane Satrapi, e Flee - Nenhum Lugar para Chamar de Lar, de Jonas Poher Rasmussen.

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