Oportuno relançamento em cópia nova - em belíssimo P&B - de um dos últimos filmes americanos do diretor austríaco Fritz Lang. Celebrado como autor do mítico Metrópolis (1926), um marco da ficção científica sempre imitado, Lang tornou-se na América um requisitado artesão. Dirigia filmes de encomenda como este, uma refilmagem de A Besta Humana de Jean Renoir, de 1938, baseado no romance homônimo de Émile Zola. Ainda assim, como era seu estilo, Lang encontrou uma fórmula onde afirmar sua visão. Expurgou desta nova adaptação as referências de Renoir sobre a influência do meio e da hereditariedade sobre o protagonista - aqui, o maquinista Jeff (Glenn Ford) -, depositando toda carga na pulsão visceral que move o triângulo amoroso central.Abrindo o filme com uma bela seqüência com a câmera dentro do trem, do ponto de vista do maquinista, Lang entrelaça as vidas de Jeff, um ex-combatente da guerra da Coréia que sonha apenas com um emprego sossegado e emoções fortes no máximo uma vez por semana, numa sessão de cinema. O destino lhe reserva bem mais do que isso. Numa viagem de volta para casa, de carona num trem, troca um beijo furtivo com a fatal Vicki Buckley (Gloria Grahame). Jeff não sabe ainda, mas a bela é casada e cúmplice de um assassinato, cometido por seu marido, Carl Buckley (Broderick Crawford), que é sub-chefe da estação onde Jeff trabalha.A partir daí, estes destinos estão embaralhados de maneira inexorável. Jeff ama Vicki que é objeto de uma paixão doentia pelo marido. Ela não é do tipo que ama quem quer que seja. Típica mulher fatal do cinema dos anos 50, manipula os homens com seu sex-appeal, voluptuosa e escorregadia, sempre pronta a dar o fora assim que a situação permitir. Seu dilema, aqui, é uma carta que o marido a obrigou a escrever e que ele guarda como forma de chantagem, já que pode comprometê-la com o assassinato.Manobrando estas emoções sombrias com seu afiado arsenal expressionista, Lang compõe um melodrama típico, delimitando um território moral sem heróis em que a idealização limita-se aos personagens secundários - caso da família Simmons, em cuja casa Jeff aluga um quarto e desperta a paixão da mocinha ingênua (Kathleen Case). O trio dos protagonistas localiza-se num mundo à parte, sem espiritualidade ou compaixão, movido apenas pelo combustível das pulsões mais básicas da natureza humana - cobiça, luxúria, inveja, um verdadeiro inventário dos pecados capitais.Há muitas outras camadas que se pode desdobrar nesta trama. Felizmente, o bom e velho Fritz Lang não sofria do vício terrível que contamina particularmente o cinema americano, de tudo explicar, tudo contar sobre seus personagens. Ele sugere seu destino e, exceto no caso de um dos três protagonistas, deixa em aberto para a imaginação do espectador quais podem ser seus próximos passos. O tipo de confiança na inteligência do público nada fácil de encontrar hoje em dia.
