A quem ainda se interessar por uma espécie de Tropicalismo tardio, Brazyl, Uma ópera tragicrônica é o filme. Baseado na peça Brazyl: Poema Anarco-Tropicalista (de 2019, montada no Teatro Oficina), foi escrita pelo cineasta soteropolitano José Walter Lima, que também roteiriza (com Júlio Góes) e dirige o longa, trazendo em cena Clara Paixão, Clovys Torres, Lucas Valadares, Rosana Judkowitch, Vanessa Carvalho e Wagner Vaz revezando-se em diversos papeis.
O filme começa nos anos de 1930, materializando uma certa obsessão que o cinema brasileiro ainda tem com a antropofagia modernista de Oswald de Andrade, num excesso espalhafatoso que devora a si mesmo numa série de esquetes que pretendem dar conta da situação do Brasil desde um século atrás até o presente.
O que se vê na tela é uma sucessão de obviedades que transitam entre o teatro e o cinema sem contemplar muito bem nenhum dos dois. Do presidente fascista ao empresariado tramando um golpe contra uma presidenta, passando por momentos como um policial humilhando uma mulher preta ou um produtor de televisão assumindo sem pudor seu comportamento abusivo contra mulheres. Tudo é material, pois tudo é Brasil, mas aproveitado de uma forma bem óbvia.
Os temas são repetidos à exaustão em roupagens diversas, o que não faz deles efetivos ou críticos, apenas repetitivos mesmo. Povoado por tipos humanos e não personagens de carne e osso, o filme se prolonga como uma pós-modernidade embebida por excessos de imagem como o feed de uma rede social correndo em velocidade alternada.
É muito perceptível e facilmente compreensível o comentário crítico que o filme pretende fazer sobre o estado das coisas no país. Mas esse tipo de metáfora ou alegoria parece perdida no tempo. É o tipo de coisa que 60 anos atrás faria a cabeça dos camaradas. Fazia mais sentido na época de um desbunde, hoje é mais um pastiche de realidade satirizada de forma superficial, pois o mundo real é muito mais bizarro e cômico do que o filme.
