04/06/2026
Drama

Meu Verão com Glória

Cleo, de 6 anos, tem uma relação recíproca muito próxima com sua babá Gloria, uma cabo-verdiana que vive em Paris, que a criou desde a morte de sua mãe. Quando a mãe de Gloria morre, ela decide voltar para seu país. Pouco tempo depois, nas férias de verão, a menina vai visitar a mulher em seu país e sua vida se transforma ao se deparar com uma nova realidade.

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Num primeiro momento, Meu verão com Glória, primeiro longa solo da franco-georgiana Marie Amachoukeli, pode lembrar o brasileiro Que horas ela volta? Uma babá cabo-verdiana abre mão de sua família, em especial de criar e estar perto do seus filhos, para cuidar de uma menina na França. A cineasta, que traz no filme experiências de sua infância, no entanto, dá uma virada dialética que o longa de Anna Muylaert não tem: o ponto de vista da criança. 

A pequena Cleo é interpretada por Louise Mauroy-Panzani, que tinha apenas 6 anos, quando fez o filme, e tem uma interpretação profunda, complexa, repleta de nuances como a menina órfã de mãe que se apega à babá, Gloria, feita por Ilça Moreno Zego, também soberba no papel. A relação das duas é próxima e saudável. O pai da menina, Arnaud (Arnaud Rebotini) é amoroso e presente, embora tenha de passar o dia fora trabalhando. Esse delicado equilíbrio entra em choque quando Glória avisa que sua mãe morreu e ela precisa voltar para Cabo Verde. 

A partir daí, Cleo sonha em visitar a babá em sua terra, e nas férias de verão ela ganha esse presente. Voa sozinha, e é recebida pela antiga babá no aeroporto entre beijos, abraços e lágrimas de alegria. Na casa da mulher, a menina conhece os filhos dela: Fernanda (Abnara Gomes Varela), uma adolescente grávida, e César (Fredy Gomes Tavares), um pré-adolescente que culpa Cleo por ter crescido sem sua mãe.

Amachoukeli arma pequenas dinâmicas, laços de amizade que se fortalecem ou enfraquecem conforme as situações, de forma delicada e precisa. Tudo isso pelo olhar da pequena Cleo que, com apenas seis anos, tem pesos enormes sobre seus frágeis ombros – como a perda da mãe quando era bebê, que resulta numa cena comovente e sincera de catarse na visita ao túmulo da mãe de Glória. 

A cineasta, que ganhou o Caméra d’Or com seu primeiro longa, Party Girl (codirigido com Claire Burger e Samuel Theis), demonstra maturidade na construção de Meu verão com Glória, seja na maneira como lida com as relações sociais ou de afeto. Com muita simplicidade, ela introduz pequenas animações ao longo do filme, que se, num primeiro momento, parecem apenas imagens fofas, conforme a trama progride mostram-se eficientes para lidar com momentos de tensão e melancolia. 

Se o filme funciona em sua simplicidade, muito se deve à fotografia de Inès Tabarin, que nunca abandona a pequena Cleo - mas o grande trunfo do longa é a presença de Louise Mauroy-Panzani que, de forma sutil, comanda as cenas. Seus belos olhos por trás de grandes óculos observam com sagacidade, às vezes, sem compreender o que está acontecendo, mas transmitem uma sabedoria que parece maior do que sua pouca idade. 

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