Eram comuns nos anos de 1990 comédias em que personagens se passavam por pessoas do gênero oposto pelos mais diferentes motivos. Aquela década era estranha. Hoje, esse tipo de subterfúgio narrativo tem outras implicações. Ainda assim, direto do túnel do tempo, alguém resolveu que era uma boa ressuscitar esse plot em Uma Advogada Brilhante.
Protagonizado por Leandro Hassum, o filme é dirigido por Ale McHaddo, uma mulher transexual, o que dá ao filme uma espécie de lastro e proteção caso alguém o queira acusar de transfobia. E é bem complicada a linha tênue em que caminha o roteiro, assinado pela diretora, Luiz Felipe Mazzoni e Cris Wersom, ao trazer como protagonista um homem cisgênero que se passa por mulher para manter seu emprego.
Leando Hassum interpreta esse protagonista, Michelle, um descendente de italianos que sempre teve problemas com seu nome, muito confundido com o de uma mulher. Aparentemente, ele é um advogado medíocre, como se vê na primeira cena, no tribunal, na qual defende a si mesmo contra a ex-mulher (a roteirista Wersom), que quer levar o filho para outro país.
O escritório de segunda linha onde trabalha foi comprado por outro de mais renome, e, para ficar com uma boa imagem, a equipe será composta apenas por mulheres, enquanto os homens deverão fazer parte de um programa de demissão. Michelle tem a sorte de seu nome ser confundido, e ao telefone ser tratado como Dra Michelle. Para manter a farsa, ele precisa do emprego por conta do salário para conseguir que o filho fique no Brasil. Assim, veste-se de mulher e passa a agir como tal.
Logo na primeira reunião com o novo chefe (Bruno Garcia), percebe que suas melhores ideias são roubadas por ele, e que, por ser mulher, suas falas são sempre interrompidas. Pode ser que haja boas intenções nisso, ao lembrar como as mulheres sofrem numa sociedade patriarcal. Mas tudo é construído para, afinal, meritocraticamente, provar o valor do homem Michelle.
Há subtramas, como a defesa de uma famosa cantora que acusa um professor de ginástica de ter plagiado seu hit, que é o primeiro caso de Michelle como mulher, que não ajuda em nada a trama - tanto que o imbróglio é resolvido na metade do filme. E há também a colega, Julia (Claudia Campolina), que se torna a melhor amiga da advogada no escritório, e por quem, é claro, o protagonista irá se apaixonar. A melhor personagem é a irmã trans de Michelle, Patrizia, interpretada com graça e verve pela atriz Olivia Lopes.
