Vencedor do Oscar de documentário 2025, depois de premiado em festivais como Berlim, IndieLisboa, CPH: Dox e Visions du Réel, Sem Chão, com direção compartilhada por um quarteto de palestinos e judeus israelenses é a mais completa tradução do impasse insuportável vivido pelo povo palestino, abordando a ocupação e destruição constante de residências na localidade de Masafer Yatta.
Trata-se de um conjunto de aldeias palestinas, localizadas no sul da Cisjordânia, que são habitadas por famílias desse povo não raro desde o século XIX - como atestam fotos guardadas pelos moradores. Há anos, o local vem sendo alvo de constantes operações do exército israelense, que recentemente o declarou como área militar para manobras de seus tanques. Os habitantes lutaram, por anos, na justiça israelense, que no entanto deu ganho de causa ao exército, assegurando, assim, a continuidade da ação de bulldozers para derrubar as casas palestinas - que não raro sofrem ataques também de colonos israelenses armados, inclusive acompanhados de soldados para protegê-los.
Dois dos diretores do filme, o advogado e ativista palestino Basel Adra e o jornalista e cineasta israelense Yuval Abraham, são personagens constantes diante das câmeras, filmando os conflitos que frequentemente acontecem à noite. Mas é à noite também que os resilientes moradores palestinos reconstróem suas casas, cobrindo-as com cobertores e tapetes para ocultá-las dos agressores. Quando não há outra opção, as famílias palestinas refugiam-se nas cavernas da região, em que a ocupação humana por pastores, seus parentes e também rebanhos, é igualmente antiga.
O filme, que foi realizado antes da mais recente guerra em Gaza, certamente não mostra a única região a sofrer esse tipo de assédio e ataque, numa tentativa sistemática de expulsar as populações palestinas de seus lugares tradicionais de moradia. Diante de tantas agressões, que não raro terminam em ferimentos e mortes, muitos desistem, mudando-se para outro lugar. Não Basel Adra e sua família. Até porque, como diz o título original do filme (No Other Land), não há outra terra para eles. Dono do posto de gasolina local, o pai de Basel é um veterano ativista, que já foi várias vezes preso pelas autoridades israelenses, uma delas durante as filmagens.Não é fácil também a situação de Yuval e da diretora de fotografia do filme, Rachel Szor, que assina a direção e o roteiro com os demais. Sendo judeus israelenses, são agredidos verbalmente pelos militares, que os tratam como traidores e os filmam, ameaçando colocar suas imagens no Facebook para que outros venham vingar-se deles.
O quarto integrante da equipe de diretores e roteiristas é o palestino Hamdan Ballal, fotógrafo, cineasta e fazendeiro que atuou como pesquisador para diversos grupos antiocoupação.
De todo modo, as imagens de Sem Chão falam por si, de modo claro e contundente, sobre o que está acontecendo na Palestina. E sem possibilidade de solução à vista.
