Milton Nascimento tem 82 anos e uma história que se confunde com a da música popular brasileira, a do Brasil recente e a biografia pessoal de milhões de brasileiros, que adotaram suas músicas como a trilha sonora de suas vidas. Nada mais natural, portanto, do que um documentário que arrisque a, de alguma forma, procurar definir o tamanho deste cometa de imensa luz e sua voz de encantar catedrais numa homenagem ao encerramento de sua carreira nos palcos.
É a turnê mundial deste encerramento, em 2022, que fornece o material das quase duas horas de Milton Bituca Nascimento, em que a diretora Flávia Moraes acompanha os deslocamentos do cantor e compositor pelo mundo e pelo Brasil. Em cada parada, conversas com seus inúmeros admiradores, entre os quais se incluem Spike Lee, Paul Simon, Herbie Hancock, Quincy Jones, Pat Matheny, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque de Holanda e tantos outros. Evidentemente, sem faltar os incontornáveis parceiros do Clube da Esquina, Márcio Borges, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta e Wagner Tiso.
São de se esperar análises e comentários carinhosos, afinal, quem estaria aqui para criticar este que é um dos maiores cantores e compositores não só do Brasil, como do mundo? Dele, Wayne Shorter disse um dia: “Só há um Milton, como só há um Miles Davis”. Não falta quem compare sua voz preciosa a um instrumento. E até surge a discussão: afinal, Milton é jazz ou não é?
Nada disso, evidentemente, importa mais do que a simples presença de Milton que, aos 82, fragilizado pelo Parkinson, não consegue mais erguer sua voz nas alturas de antigamente. Mas ele continua aqui, atento, dividindo o palco com artistas mais jovens, como Esperanza Spalding e Carminho. Sentadinho no centro do palco, mas com os olhos brilhando como sempre. Ele ainda está aqui.
Entremeando as conversas sobre música e os passeios com o filho, Augusto, surgem recordações da vida pessoal, que o levou da casa da avó, depois da morte precoce de sua mãe, Maria, para o lar adotivo de Lília e Josino Brito Campos, em Três Pontas. Um casal branco, como ele lembra, e em que especialmente a jovem Lília, recém-casada, foi alvo de comentários moralistas e racistas por conta de seu filho preto. Crescendo num ambiente majoritariamente branco, ele mesmo foi alvo de muita discriminação. Nada disso o demoveu de tornar-se a estrela maiúscula que ele se tornou.
Um momento bonito do documentário é quando músicos de gerações e estilos diferentes, Djavan, Mano Brown e Criolo, entoam alternadamente os mesmos versos de uma canção. A narração de Fernanda Montenegro igualmente sublinha, com um texto cuidado, diversos momentos dessa trajetória exemplar. Evidentemente, mesmo sem ser a rigor chapa-branca, Milton Bituca Nascimento não procura polêmicas e prega para convertidos, para nós todos, devotos da sua igreja musical. Viva Milton!
