Começando próxima da Estação da Luz, atravessando o bairro da Santa Ifigênia e indo até a praça da República, a rua Aurora é marcada por seu ar de decadência, um glamour noir marginal que fascina. Uma das bases da Boca do Lixo no passado, hoje é composta pela diversidade humana a que abriga sem preconceitos.
Rua Aurora – Refúgio de Todos os Mundos, do pernambucano Camilo Cavalcante, ouve com atenção o que essa rua e seus moradores e moradoras têm a dizer. É um documentário que observa com curiosidade, dando voz a uma São Paulo marcada pela variedade de histórias e trajetórias que, de uma forma ou outra, chegaram ali.
Do cinema, talvez a associação mais forte, ao menos para os cinéfilos, Cavalcante traz Virgílio Roveda, que além de atuar trabalhou na equipe técnica de diversos filmes, como O Estranho Mundo de Zé do Caixão, Ritual dos Sádicos e A Virgem e o Machão. E também a atriz Débora Muniz que, como conta, começou fazendo filmes comuns até que a Boca chegou à sua fase de filmes de sexo explícito, e ela não teve como escapar disso, atuando em longas como A B... Profunda e Borboletas e Garanhões.
Mas o filme deixa o pessoal do cinema para o final. Até lá, o documentário mergulha na vida de moradoras e moradores da região, mesmo os em situação de rua, com histórias comoventes, muitas vezes de abandono, mas que encontraram ali, para usar o título do filme, refúgio e seus pares.
O longa observa e ouve a essas pessoas com carinho e uma curiosidade saudável, deixando que contem suas histórias de como chegaram até ali, e o que a rua Aurora representa para eles e elas. Produzido durante a pandemia, o filme incorpora em si, em sua estética, o ambiente que é seu tema, fazendo dele uma espécie de fruto ou herdeiro do cinema da Boca do Lixo, do Cinema Marginal.
