Embora Presença tenha sido feito e lançado nos EUA antes de Código Preto, no Brasil houve uma inversão na ordem das estreias dos dois filmes de Steven Soderbergh. Não que isso faça muita diferença, mas é bom pensar que o longa mais recente dele é um tanto melhor que o anterior, um terror marcado por um único artifício: quase todas as cenas são um plano-sequência.
A princípio, esse truque funciona com um espécie de olhar subjetivo do/da fantasma ou entidade que está assombrando a nova casa de uma família. A câmera estaria nos colocando no ponto de vista dessa manifestação sobrenatural, dando-nos uma vantagem de percepção que as personagens não teriam. Porém, logo essa tese cai por terra, quando outras manifestações acontecem, como objetos se movendo.
Lucy Liu é Rebekah, uma mulher de atitude, mais do que seu marido, Chris (Chris Sullivan). Não fica muito claro com o que trabalham, mas parecem enfrentar uma crise – o marido até menciona que a casa é um pouco cara para eles, mas Rebekah insiste que o local é bom e há uma escola excelente nos arredores. Chris se preocupa com o fato de ela estar fazendo algo errado – novamente, não fica claro – e até sonda um amigo advogado se os crimes de um cônjuge podem acarretar a prisão do outro.
Os filhos adolescentes deles são Tyler (Eddy Maday), um astro da natação na escola, e a delicada Chloe (Callina Liang), que passa por uma profunda melancolia com a morte recente de sua melhor amiga. Rebekah, num diálogo, deixa bem claro que gosta muito mais de Tyler do que da filha, o que acaba sendo um peso para a jovem, de quem a manifestação sobrenatural começa a se aproximar.
Trabalhando com um roteiro do veterano David Koepp, o enredo se interessa mais pela sugestão, embora, em alguns momentos, deixe tudo mais explícito. O mistério de quem ou o que é esse fantasma não custa muito a ficar óbvio, e o filme se torna frustrante a partir daí.
Entra em cena na casa da família Ryan (West Mulholland), amigo de Tyler por quem Chloe se interessa. O garoto, supostamente uma pessoa de bem, se revela um mau caráter, tentando dopar a namorada para abusar dela sexualmente – embora já mantenham relações consentidas. Nesse momento, o fantasma se mostra uma figura inconsistente, não fazendo sentido com um comportamento errático.
Presença, com sua câmera que se move descontroladamente e enquadramentos que deformam os atores e as atrizes, é mais do que um filme, é um cacoete audiovisual que não chega num ponto de excelência como outros filmes de fantasmas marcantes – Os Outros é um dos que vêm à mente –, e se perde muito rápido em sua pirotecnia técnica sem sentido.
