Primeira parte de uma trilogia do diretor norueguês Dag Johan Haugerud, Sex investiga os dilemas existenciais de dois homens na cidade de Oslo - que, como é habitual nesta trilogia, é não só cenário como personagem da trama.
São dois homens simples, limpadores de chaminés - uma profissão requisitada num país onde o inverno é rigoroso. Eles são Feier (Jan Gunnar Roise) e Avdelingsleder (Thorbjorn Harr), dois amigos de longa data que compartilham confidências nos intervalos do trabalho. Um dia, Feier revela uma história surpreendente: inesperadamente, resolveu ceder ao convite de um cliente e fez sexo com ele, sem nunca antes ter tido nenhuma experiência com outro homem.
A partir dessa confissão, desencadeia-se uma série de situações em torno das reações à volta de Feier sobre esse ato impulsivo - do qual ele não se arrepende, nem acha que a partir daí se tornou gay. Mas no seu entorno a aceitação não é tão natural, a começar por sua mulher, que fica abaladíssima. Ruiu por terra tudo o que ela acreditava saber do marido, com quem vive há 20 anos e com quem tem um filho.
Embora mais compreensivo, o amigo Avdelingsleder também fica perplexo. Ele mesmo, aliás, desabafa com Feier sentimentos dúbios desencadeados por um sonho recorrente, em que ele sempre encontra David Bowie e tem a estranha sensação de estar sendo olhado de um modo diferente, como se ele fosse uma mulher.
A partir destas duas histórias masculinas, o filme se constrói em torno de longos diálogos, dos quais participam as esposas e também o filho de Avdelingsleder (Theo Dahl) - que, como todo adolescente, sonha abrir um canal no Youtube. Toda essa construção, permanentemente interseccionada com as paisagens urbanas de uma Oslo bonita e bastante ordenada, remetem a uma realidade, a rigor, bastante diferente da nossa. Parece uma sociedade mais igualitária, sem grandes problemas sociais, mas onde não deixam de florescer, evidentemente, essas angústias e inquietudes tão humanas, por mais fleumáticos que os nórdicos pareçam ser.
Contando apenas com duas histórias bastante autocontidas, Haugerud consegue criar personagens com nuances, de carne e osso e capazes de despertar empatia em suas dúvidas e desejos. Porque é de desejos, mais do que tudo, que esta história trata. Haugerud tem uma pegada mais suave do que um Ingmar Bergman, para citar outro nórdico, mas também é profundo a seu modo. E bastante contemporâneo.
A trilogia prossegue com Love, também estreando nos cinemas, e, logo a seguir com Dreams, que acaba de vencer o Urso de Ouro em Berlim.
