04/06/2026
Drama Comédia

Coração de Fogo

Comédia dramática premiada em Gramado 2003, este filme uruguaio conta a aventura de três velhinhos que decidem roubar uma locomotiva.

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Duplamente premiado no Festival de Gramado 2003, com os troféus de melhor filme latino para o júri popular e um especial do júri oficial, este raro exemplar da cinematografia uruguaia - que não passa de quatro produções anuais, índice de 2002 - merece ser visto. Não só pela raridade nem pelos prêmios, mas pela boa liga entre um argumento original (baseado em fatos reais) e um elenco excepcionalmente afinado.

O trio principal é formado pela prata da casa do cinema argentino - Hector Alterio (de O Filho da Noiva), Federico Luppi (que tem carreira internacional) e Pepe Soriano. Ao lado destes veteranos de alta classe, o jovem Gastón Pauls de Nove Rainhas, agora defendendo o posto de vilão. Pauls interpreta Jimmy Ferreira, empresário que arremata uma centenária locomotiva uruguaia, a "33", para uma filmagem em Hollywood. Inconformados com a venda de uma peça da história do país, um trio de ferroviários, o "professor" (Alterio), Pepe (Luppi) e Dante (Soriano), decidem roubar a locomotiva, levando a bordo na aventura um garotinho, Guito (Balaram Dinard).

A presença dessa trupe argentina explica-se por se tratar de uma co-produção com o nosso vizinho do Mercosul que tem dado as melhores respostas contra a globalização num cinema ativo e brigador. Na história deste filme uruguaio, aliás, encontra-se um grande mote contra o mesmo rolo compressor das economias mundiais, através deste relato de rebeldia de indivíduos que decidem não render-se ao que se apresenta como uma lógica implacável. Será que é mesmo impossível resistir ? Ou isso é o que gente como o Jimmy Ferreira quer que o resto da humanidade acredite, só para que ele e uns poucos arrivistas sem qualquer limite continuem enchendo impunemente seus bolsos?

Esta última hipótese é, pelo menos, a escolha dos três velhinhos, todos impagáveis. O filme é vigoroso e divertido enquanto firma seu foco neles, em sua grande aventura numa locomotiva que percorre todo o Uruguai, portando uma faixa onde se lê "o patrimônio não se vende", e desviando-se habilmente das armadilhas de uma polícia tão inepta quanto corrupta - afinal, os tiras não estão lucrando nada para pegar três velhinhos que ganharam pinta de heróis na cobertura da mídia.

Se há alguma ressalva a fazer aqui está no tom de melodrama que contamina a narrativa, em sua porção final. Mas nada que faça descarrilar este alegre trem em que viaja a dignidade dos desvalidos deste lado do mundo.

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