Homem com H, de Esmir Filho, é o que se pode chamar de uma cinebiografia em linha reta, cobrindo, da infância à maturidade, episódios centrais na vida do cantor Ney Matogrosso - interpretado, dos 17 aos quase 50 anos, pelo ator Jesuíta Barbosa.
Entrando não só na pele, mas em vários figurinos reais do cantor, e usando a própria voz em alguns números musicais, Jesuíta demonstra toda a sua esperada dedicação e empenho. Assim, cumpriu com a necessária paixão o objetivo de criar uma versão convincente e enérgica de um mito, não só ainda vivo e ativo nos seus bem-vividos 83 anos, como que foi suficientemente próximo do projeto para supervisionar bastidores e dezenas de versões do roteiro, também escrito por Esmir Filho.
Nem por essa supervisão atenta do biografado se pode afirmar que se trate de um filme chapa-branca. Muito pelo contrário, a cinebiografia parece bastante honesta para retratar perrengues familiares, como os conflitos violentos do jovem Ney com com seu pai, o militar Antônio (Rômulo Braga), que não queria um filho artista e homossexual, que era no entanto apoiado pela mãe, Beita (Hermila Guedes); as divergências com o parceiro João Ricardo (Mauro Soares) que levaram à dissolução precoce dos Secos & Molhados, banda que tornou Ney uma celebridade nacional nos anos 1970; e uma vida amorosa intensa, que atravessou o sombrio período da AIDS, nos anos 1980/90, doença que custou a vida de parceiros como Cazuza (Jullio Reis) e o médico Marco de Maria (Bruno Montaleone), companheiro do cantor por 13 anos.
Essa trajetória intensa é atravessada, como seria de esperar, por músicas que se tornaram parte do repertório de algumas gerações, como Sangue Latino, O Vira, Não Existe Pecado ao Sul do Equador e, evidentemente, a canção que empresta o título ao filme.
Contrariamente à expectativa, Ney não dublou todas as músicas. Declaradamente, cantou sozinho na sequência do coral em Brasília, onde o jovem cantor descobre sua extensão vocal com Casinha Pequenina; e na interpretação de O Mundo é um Moinho e Réquiem para Matraga. Houve também uma mistura das vozes do cantor e do ator, por exemplo, em Rosa de Hiroshima.
O grande trunfo do filme é afirmar a grande ousadia de Ney apenas por existir e se manifestar, artística e sexualmente, do jeito que se expressou, em plena ditadura militar, apresentando-se nos palcos maquiado, de peito nu e rebolando. Ainda assim, pode-se ressentir a escassez de um contexto social e político um pouco mais definido na história. A menção à ditadura limita-se a uma visita de censores ao camarim do artista e a uma ou outra observação quanto ao visual e o rebolado do cantor numa emissora de TV. Não se mostra nenhuma cena de prisão do cantor, que aconteceu na realidade, sob a alegação de “vadiagem”.
A transgressão representada por Ney, é claro, sempre esteve mais em seu corpo, na maneira como o empunhava e sua sexualidade. Isso está no filme. Mas o contexto da época em que isso acontecia e que mostraria, até, o quanto isso era disruptivo, mostra-se, afinal, limitado.
O diretor Esmir Filho, entrando na maturidade, afasta-se um pouco mais das experimentações estéticas e temáticas de sua estreia, Os Famosos e os Duendes da Morte (2009). Mas assina um filme digno, com o qual o imenso público de Ney Matogrosso poderá identificar-se, ainda mais com a participação direta do cantor, na sequência final, com um trecho de sua turnê de 2024, Bloco na Rua, ao som da vibrante Eu Quero é Botar Meu Bloco na Rua, de Sérgio Sampaio.
