Apesar de ter morrido com apenas 26 anos, no agora remoto ano de 1937, é praticamente impossível que algum brasileiro hoje não saiba cantarolar ao menos um, provavelmente muitos sambas de Noel Rosa. Quem é que não conhece Feitiço da Vila, Com que Roupa, Três Apitos, Onde Está a Honestidade, Fita Amarela, Filosofia, Último Desejo, algumas das 250 músicas que esse prolífico e boêmio compositor de Vila Isabel deixou para trás?
O documentário Noel Rosa - Um Espírito Circulante, de Joana Nin, não poderia ambientar-se em outro bairro do Rio de Janeiro que a famosa Vila, em que a figura de Noel paira como um fantasma benigno, um sopro abençoado da arte e da boemia que o caracterizam. Até por isso, não é difícil encontrar seu nome nos letreiros de todo tipo de loja e comércio e sua estátua em metal, sentado numa mesinha de um dos inúmeros bairros da Vila Isabel, e na fachada da escola de samba do bairro, a Unidos de Vila Isabel.
Desfilam pelo documentário cantores e compositores que homenageiam esse legado exemplar, como Mart'nália, Ilze Carvalho, Cláudio Jorge, Dori Caymmi, Moacyr Luz e Edu Krieger, inclusive alguns não só interpretando as canções de Noel como as próprias homenagens ao compositor. Caso de Krieger e de sua belíssima Aos Vinte e Sete (2011), lembrando a idade que Noel não conseguiu alcançar, atingido pela tuberculose.
É de Krieger, aliás, um dos depoimentos mais esclarecedores sobre a riqueza da obra de Noel, salientando o apuro com que ele construía suas rimas e que podem passar despercebidos a nós, leigos, apenas preocupados em cantar suas letras matreiras, divertidas, algumas também dramáticas.
É de Krieger, também, uma das definições mais certeiras sobre Noel, que ele define como portador de “uma atitude rock’n roll antes dessa atitude até existir”.
Não poderia falar ao documentário farto material de arquivo, como imagens de Noel como integrante do Bando dos Tangarás, entre 1929 e 1932, e inúmeros depoimentos gravados de diversas personalidades, como Martinho da Vila, e algumas já falecidas, caso de Aracy de Almeida, Russo do Pandeiro, Braguinha, Pedro Caetano, Marília Batista, Cartola e tantos outros. Cartola, aliás, foi o autor de uma das mais belas homenagens ao jovem colega, com a imortal A Vila Emudeceu, composta no ano de sua morte, 1937.
