Publicado originalmente em 2009, o romance O Jantar, do holandês Herman Koch, já foi alvo de cinco adaptações para o cinema – entre elas, a brasileira Fuse, exibida em festivais no ano passado, mas ainda inédita no circuito. A versão sul-coreana ganha o título de Uma Família Normal, e, embora altere alguns elementos, mantém a essência do original.
Dirigido por Hur Jin-ho, o filme é marcado por dois atropelamentos. O primeiro acontece logo na primeira cena. Uma discussão no trânsito acaba com um ato criminoso, que mata um homem e deixa sua filha de 8 anos em estado grave no hospital. Embora isso não seja exatamente a trama central, já levanta a discussão moral sobre dinheiro e poder que o filme quer abordar.
Um dos protagonistas é Jae-wan (Sol Kyung-gu), advogado criminal que defenderá o atropelador, filho de um milionário. Na outra ponta, está o irmão dele, o médico Jae-gyu (Jang Dong-gun), que faz de tudo para salvar a vida da menina. Dois homens da mesma família com visões de mundo opostas. O filme não é muito sutil com isso, e é óbvio que haverá uma dança das cadeiras em relação aos conceitos morais que eles defendem.
Uma vez por mês, os irmãos se encontram em um restaurante caríssimo para jantar com suas respectivas mulheres. Num desses eventos, descobrem que estão trabalhando no mesmo caso, e um pede ao outro para fazer a coisa a certa. Acontece que isso é discutível, e depende do ponto de vista de cada um em cada situação.
Jae-wan tem um filha adolescente do primeiro casamento, Hye-yoon (Hong Ye-ji). Sua segunda esposa, Ji-soo (Claudia Kim), é bem mais jovem do que ele, e juntos têm um filho recém-nascido. Jae-gyu tem um filho, Yang Si-ho (Kim Jung-chul), um pouco mais novo do que a prima, com quem se dá bem, e passam bastante tempos juntos, especialmente quando os pais saem para jantar. É uma amizade que se mostrará arriscada, para eles e para quem estiver por perto.
Mais um ato de extrema violência, mais impressionante do que aquele da abertura do filme, irá acontecer. Novamente, câmeras de segurança mostram as coisas como aconteceram. Não há – ou não haveria – como discutir com imagens, mas a moral das personagens é fluida, e dança conforme as necessidades de cada um. O certo e o errado dependem dos interesses – especialmente daqueles que têm muito dinheiro.
Não há como não lembrar de outro filme sul-coreano recente, o premiado Parasita, que escancarava, como aqui, a hipocrisia da elite social e política do país. Não é justo para o diretor Hur comparar seu filme ao de Bong Joon-Ho, que é mais ambicioso, e mais bem-sucedido. Mas o que há de mais impressionante aqui é como praticamente ninguém presta, exceto Ji-soo, a jovem esposa é a única a revelar um pouco de bom senso.
