“Pirata”, “Samurai”, “Napoleão do Povo”. Esses são alguns apostos atribuídos a Lampião no documentário Lampião, Governador do Sertão. São proferidos, respectivamente, por um jovem cantor de músicas inspiradas no cangaço, Ariano Suassuna e Sylvie Pierre, crítica de cinema francesa. O filme de Wolney Oliveira envereda justamente por essa busca pela pluralidade, ou, mais do que isso, pela desconstrução do mito e a reconstrução de uma outra figura.
Como diz a própria Pierre, todo mito que sobrevive por tanto tempo tem um fundo de verdade. Para provar isso, o documentário se vale de uma enorme gama de depoimentos, de sobreviventes do bando de Lampião a familiares – em especial, Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria Bonita.
Sóbrio em sua construção formal, o documentário busca sua razão de ser nessa investigação polifônica sobre o homem versus o mito, concluindo que, como colocou John Ford, se a lenda é mais interessante do que a verdade, imprima-se a lenda. Mas a questão é: não existe uma lenda definitiva sobre Lampião. Existem muitas.
Virgulino Ferreira tem uma história, especialmente oral, marcada por contradições. Uns dizem que ele matou o pai, outros, que virou cangaceiro para vingar a morte do pai. Alguns o chamam de herói, outros de bandido sanguinário, que prestava serviços como matador para qualquer um que pagasse, fosse pobre ou rico.
Em meio a tantas histórias, o filme toma, obviamente, seu partido, embora de forma até discreta. Lampião é construído como uma figura um tanto heroica, mas, acima de tudo, no mundo contemporâneo, como um produto da indústria cultural. A memória, a lenda ou o mito, como se quiser chamar, do cangaço movimenta a economia de pequenas cidades, seja com artefatos, museus ou turismo.
Mas não é só isso. Lampião e sua história foram tema do desfile da escola de samba carioca Imperatriz Leopoldinense, em 2023, que foi a vencedora do Carnaval do Rio. Chegar a tema de samba-enredo, como se sabe, é o ápice da comercialização de algo enquanto produto cultural. Nesse sentido, como mostra o filme, o cangaceiro ganha um status que está acima dele mesmo e de sua história.
