Em Memórias de um Esclerosado, o cartunista gaúcho Rafael Corrêa volta-se a si mesmo num relato sincero e honestamente comovente sobre como conviver com a esclerose múltipla, com a qual foi diagnosticado em 2010. Dirigido por ele e Thais Fernandes, o documentário acompanha o cotidiano do artista, suas dores e desafios.
Cartunista e autor do personagem de tirinhas Artur, o arteiro, Rafael se revela um jovem sagaz e divertido, que tenta encarar sua condição clínica com bom humor, mas, claro, nem sempre é possível. As dificuldades de locomoção complicam a execução de tarefas simples, como tomar banho. Com o tempo, no entanto, ele busca maneiras de lidar com as limitações, driblá-las mesmo, para seguir em frente.
Quando nem sempre a realidade dá conta, ou documentário precisa adentrar uma espécie de vida interior de Rafael, entrando em cenas excelentes animações que estabelecem um pronto diálogo com a vida comum, mostrando a ausência de qualquer autopiedade por parte do desenhista – muito pelo contrário.
Rafael despe-se, de forma literal e figurada, diante da câmera. Suas falas divertidas, no entanto, revelam a profunda complexidade de lidar com a nova realidade que transformou sua vida, e o obrigou a reorganizar tudo. O filme é, também, uma forma de aprender a lidar com tudo isso, uma expiação que sedimenta o enorme poder de transformação e resiliência do ser humano diante do inesperado.
Vencedor de diversos prêmios no Cine PE de 2024, entre eles melhor longa na escolha do júri e do público, Memórias de um Esclerosado é, enfim, um filme otimista em seu olhar cândido de Rafael sobre Rafael, numa bem-vinda experimentação de linguagens que tentam dar conta de sua figura central. É exatamente, nessa construção polifônica de formas e conteúdos que o filme é mais feliz. Um documentário quadrado, careta, não faria justiça a Rafael e sua trajetória.
