Baseado no conto homônimo do escritor mineiro Murilo Rubião, de 1965, Os Dragões é um filme repleto de boas intenções em sua história sobre aceitação numa sociedade marcada pelo dito normal. É, também, um filme que claramente mira no público jovem, como seus protagonistas, que estão mais abertos a essa discussão e são algumas das maiores vítimas quanto precisam sufocar suas identidades e vontades para se encaixar numa sociedade preconceituosa e marcada pelo patriarcado.
Mas, como bem se sabe, boas intenções não são suficientes e o longa padece em seu nobre propósito, o que é uma pena, pois há um potencial grande ali. O diretor Gustavo Spolidoro já deu provas de sua capacidade de diálogo com um público mais jovem, como em Uma Carta para o Papai Noel, mas em Os Dragões parece mais vítima de seus intentos.
O longa se passa numa cidade do interior gaúcho, e seu elenco é formado, exclusivamente, por ator e atrizes que não tinham experiência em atuar – e isso é um dos maiores obstáculos aqui, pois os personagens são complexos, necessitam de nuances que nunca são atingidas nas atuações.
Os protagonistas são um quinteto de adolescentes que sonham em cruzar o rio e descobrir uma vida melhor, com mais liberdade, num lugar na outra margem. Mas são sempre avisados dos perigos do outro lado. O grupinho até tenta, mas não se encaixa na moral rígida e repressiva do local onde sempre viveu. Nesse dilema, misteriosamente, seus corpos começam a se transformar, e eles se tornam dragões. A questão é: aceitam essa nova realidade e possibilidade, ou se curvam à vida na cidadezinha e abrem mão dessa identidade?
É muito fácil entender o desejo de Spolidoro adaptar o conto. De forma fantástica, toca em um tema perene à juventude, como construir a própria identidade diante de um mundo opressor. O roteiro, assinado pelo cineasta e Gibran Dipp, expande o original, criando individualidade às personagens, que no original são um grupo coeso.
Os diálogos empostados e as atuações rígidas não ajudam na fluência do longa que força artificialidade quando a história pede organicidade. O tema do amadurecimento, tão caro ao cinema, é tratado de forma superficial quando tudo o que o filme tem a dizer é um tanto óbvio, também.
