O título brasileiro Terremoto em Lisboa pode dar uma ideia equivocada do que é o longa da cineasta portuguesa Rita Nunes. O longa, lançado originalmente como O Melhor dos Mundos, não é, exatamente, um filme-catástrofe aos moldes hollywoodianos como pode parecer. É mais uma história sobre crises morais, éticas e o papel da ciência na possibilidade de um desastre.
Em meados do século XVIII, Lisboa foi atingida por um terremoto devastador que, além de destruir a cidade, matou mais de 10 mil pessoas (os números não são conclusivos, e alguns relatos apontam algo bem maior). A partir dessa tragédia, os estudos sísmicos se tornaram mais difundidos e precisos, e acredita-se que algo parecido novamente acontecerá na cidade. Corta para 2027, ano em que se passa a ação do longa, e equipamentos modernos, instalados no fundo do mar, permitem perceber que um terremoto se aproxima.
A protagonista do longa, Marta (Sara Barros Leitão), é uma sismóloga que trabalha numa equipe multidisciplinar que detecta a possibilidade de um terremoto na cidade em poucos dias. O grupo, que inclui seu marido oceanógrafo, Miguel (Miguel Nunes), se cinde. O que fazer: contar para as autoridades e criar um pânico generalizado, colocando em risco também suas carreiras e reputações (se o terremoto não acontecer), ou não fazer nada (quando muito, proteger apenas as pessoas mais próximas)?
Os poucos minutos do longa (que dura apenas 70 minutos) tentam dar conta dessa complexidade a partir do dilema do próprio casal que tem visões distintas sobre como lidar com essa possibilidade de que a terra trema. O roteiro, assinado pela diretora e o brasileiro João Cândido Zacharias, poderia ter um pouco mais de ambição e o filme, mais duração, embora da forma como está não deixe de ser interessante.
O questionamento resulta em discussões e dilemas éticos e políticos não muito diferentes daqueles que o mundo passou por volta de 2020 com a pandemia de covid. E, embora a cineasta tenha dito, em entrevista, que o filme foi pensado antes disso, fica bem claro que o longa dialoga diretamente com o mundo em que vivemos atualmente.
