Os filmes do australiano Adam Elliot são marcados por um tom forte de melancolia, como seu primeiro longa Mary e Max – Uma Amizade Diferente. Foram necessários 15 anos para produzir seu longa seguinte, Memórias de um Caracol, mas o resultado não deve decepcionar quem esperou avidamente: o mesmo esmero visual e a melancolia estão lá.
Feito na técnica de stop-motion, o filme foi indicado ao Oscar e ganhou o prêmio máximo no Festival de Annecy de 2024, o mais importante da animação. Nada disso é surpresa, dada a beleza visual e profundidade emocional dos filmes do diretor, que ganhou um Oscar com o curta Harvey Krumpet, em 2004. Além disso, esse segundo longa ganhou o prêmio de direção na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo em 2024.
A protagonista de Memórias de um Caracol é Grade Pudel, que no começo do filme é uma mulher de meia-idade, solitária, acumuladora e colecionadora de objetos relativos a caracóis. No passado, sua infância foi problemática. Separada do irmão gêmeo, Gilbert, depois de terem ido para um orfanato, eles crescem em lados opostos da Austrália.
O garoto acaba na casa de uma família fanática religiosa, devota de Jesus bebê – e não da versão adulta. Já Grace vive na capital do país, Canberra, com um casal que costuma deixá-la sozinha por bastante tempo. Assim, ela se torna amiga de Pinky, uma idosa excêntrica que introduz a menina na paixão por caracóis.
Apesar dos personagens serem crianças em boa parte do longa, o tema central mesmo é a tristeza com que elas chegam à vida adulta. Em tons escuros, muitos deles marrons, Elliot não poupa ninguém dessa visão pautada pela perda da inocência e ludicidade enquanto crescemos. Ainda assim, ao trazer à tona as dores do processo de envelhecimento, o filme exalta, exatamente, as alegrias de se estar vivo.
