18/07/2026
Comédia

O Grande Golpe do Leste

Em julho de 1990, as duas Alemanhas se preparam para os últimos passos da reunificação, depois da queda do Muro de Berlim. Um grupo de pessoas na Alemanha Oriental descobre que o dinheiro local está sendo guardado num bunker. Antes que ele perca o valor, elas roubam uma grande quantidade. Agora, devem apressar-se para trocá-lo por eletrodomésticos ou o que puderem, tendo um prazo de poucos dias. Nos cinemas.

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Natja Brunckhorst tornou-se conhecida mundo afora como a atriz adolescente que protagonizou, aos 13 anos, o chocante drama Eu, Christiane F. Drogada e Prostituída, em 1981. Quarenta e quatro anos depois, ela ressurge como a roteirista e diretora da comédia O Grande Golpe do Leste, em que se volta para a ainda pouco abordada vida na Alemanha Oriental.

A época da história é julho de 1990. O Muro de Berlim já caiu há oito meses e a reunificação das duas Alemanhas é iminente. O que resta do sistema socialista está desmoronando, o desemprego cresce e a incerteza também. Maren (Sandra Hüller) e o marido, Robert (Max Riemelt), encaram esse panorama instável ao lado dos filhos, o adolescente Jannek (Anselm Haderer) e a pequena Dini (Lotte Shirin Keiling), e dos vizinhos e amigos de um pequeno condomínio.

A rotina é quebrada pela volta inesperada de Volker (Ronald Zehrfeld), amigo de infância de Robert e algo mais para Maren, formando um triângulo não completamente assumido, embora evidente. Além disso, chama a atenção de todos o vai e vem de caminhões direcionados a um bunker nas imediações, que levanta suspeitas de algo grande acontecendo nos últimos dias antes da reunificação.

Convencido da importância dessa movimentação, Robert reaproxima-se do tio, Markowski (Peter Kurth), que trabalha como segurança na bunker. E acabam descobrindo que os caminhões depositam ali o dinheiro da Alemanha Oriental que, em poucos dias, perderá todo o valor. Antes disso, Robert, Maren e Volker se apropriarão do que puderem, tentando trocar as notas que logo serão substituídas pelo marco alemão.

O espírito da história é de simpatia pela rebelião destes cidadãos comuns que, por anos, acreditaram na honestidade do sistema a que serviam, e cuja lisura descobrem ter sido bem menor do que supunham. Prova disso são as notas de altos valores, que nem chegaram a circular, e que foram agora escondidas no bunker.

O tempo é escasso, porém, para que o trio possa declarar o dinheiro, fazendo jus a uma futura troca, ou mesmo trocá-lo por mercadorias, como eletrodomésticos - cujos comerciantes, vindos do lado Ocidental, aceitam a velha moeda Oriental com um câmbio vantajoso para eles. Assim, Maren, Robert e Volker decidem compartilhar o dinheiro que pegaram do bunker com os vizinhos, socializando a vantagem entre todos.

Ao mesmo tempo que tira partido das inúmeras confusões deste compartilhamento do segredo, salientando as diferenças de personalidade entre os moradores do condomínio, o filme procura criar empatia por estes cidadãos comuns que, de boa fé, procuraram construir o socialismo, acreditando em seus dirigentes - que, afinal, os abandonaram sem emprego nem vantagem alguma. Por isso, parece utópica, embora atraente, a idéia de usar parte desse dinheiro para adquirir a fábrica em que tantos dos moradores locais trabalhavam, para que possam ter alguma alternativa econômica na Alemanha reunificada. Se isso é viável ou não, ficará mais claro logo adiante, assim como a resolução do impasse entre Maren e seus dois homens que, no fundo, sempre foram amigos. 

Da confluência entre esses dilemas pessoais e sócio-políticos o filme extrai a sua graça, com uma leveza que não muito habitual no cinema alemão. Muito disso se deve a um elenco refinado, em que se destacam também a veterana Ursula Werner, na pele de Kate, a velha senhora que atravessou tantas guerras e mudanças de regime, e Martin Bramback, interpretando o burocrata Lunke.

O mais incrível de tudo é que o roteiro se inspira numa história real. Houve realmente esse roubo do dinheiro do bunker, embora os ladrões nunca tenham sido identificados, assim como o montante total roubado. Fato é que, de tempos em tempos, ainda surgem bolsas contendo parte das notas de alto valor que nunca haviam circulado. O resto do dinheiro lançado no bunker foi incinerado somente em 2001.

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