Natja Brunckhorst tornou-se conhecida mundo afora como a atriz adolescente que protagonizou, aos 13 anos, o chocante drama Eu, Christiane F. Drogada e Prostituída, em 1981. Quarenta e quatro anos depois, ela ressurge como a roteirista e diretora da comédia O Grande Golpe do Leste, em que se volta para a ainda pouco abordada vida na Alemanha Oriental.
A época da história é julho de 1990. O Muro de Berlim já caiu há oito meses e a reunificação das duas Alemanhas é iminente. O que resta do sistema socialista está desmoronando, o desemprego cresce e a incerteza também. Maren (Sandra Hüller) e o marido, Robert (Max Riemelt), encaram esse panorama instável ao lado dos filhos, o adolescente Jannek (Anselm Haderer) e a pequena Dini (Lotte Shirin Keiling), e dos vizinhos e amigos de um pequeno condomínio.
A rotina é quebrada pela volta inesperada de Volker (Ronald Zehrfeld), amigo de infância de Robert e algo mais para Maren, formando um triângulo não completamente assumido, embora evidente. Além disso, chama a atenção de todos o vai e vem de caminhões direcionados a um bunker nas imediações, que levanta suspeitas de algo grande acontecendo nos últimos dias antes da reunificação.
Convencido da importância dessa movimentação, Robert reaproxima-se do tio, Markowski (Peter Kurth), que trabalha como segurança na bunker. E acabam descobrindo que os caminhões depositam ali o dinheiro da Alemanha Oriental que, em poucos dias, perderá todo o valor. Antes disso, Robert, Maren e Volker se apropriarão do que puderem, tentando trocar as notas que logo serão substituídas pelo marco alemão.
O espírito da história é de simpatia pela rebelião destes cidadãos comuns que, por anos, acreditaram na honestidade do sistema a que serviam, e cuja lisura descobrem ter sido bem menor do que supunham. Prova disso são as notas de altos valores, que nem chegaram a circular, e que foram agora escondidas no bunker.
O tempo é escasso, porém, para que o trio possa declarar o dinheiro, fazendo jus a uma futura troca, ou mesmo trocá-lo por mercadorias, como eletrodomésticos - cujos comerciantes, vindos do lado Ocidental, aceitam a velha moeda Oriental com um câmbio vantajoso para eles. Assim, Maren, Robert e Volker decidem compartilhar o dinheiro que pegaram do bunker com os vizinhos, socializando a vantagem entre todos.
Ao mesmo tempo que tira partido das inúmeras confusões deste compartilhamento do segredo, salientando as diferenças de personalidade entre os moradores do condomínio, o filme procura criar empatia por estes cidadãos comuns que, de boa fé, procuraram construir o socialismo, acreditando em seus dirigentes - que, afinal, os abandonaram sem emprego nem vantagem alguma. Por isso, parece utópica, embora atraente, a idéia de usar parte desse dinheiro para adquirir a fábrica em que tantos dos moradores locais trabalhavam, para que possam ter alguma alternativa econômica na Alemanha reunificada. Se isso é viável ou não, ficará mais claro logo adiante, assim como a resolução do impasse entre Maren e seus dois homens que, no fundo, sempre foram amigos.
Da confluência entre esses dilemas pessoais e sócio-políticos o filme extrai a sua graça, com uma leveza que não muito habitual no cinema alemão. Muito disso se deve a um elenco refinado, em que se destacam também a veterana Ursula Werner, na pele de Kate, a velha senhora que atravessou tantas guerras e mudanças de regime, e Martin Bramback, interpretando o burocrata Lunke.
O mais incrível de tudo é que o roteiro se inspira numa história real. Houve realmente esse roubo do dinheiro do bunker, embora os ladrões nunca tenham sido identificados, assim como o montante total roubado. Fato é que, de tempos em tempos, ainda surgem bolsas contendo parte das notas de alto valor que nunca haviam circulado. O resto do dinheiro lançado no bunker foi incinerado somente em 2001.
