Instrumentista, compositor e parceiro de Cazuza em canções como Brasil e Solidão que Nada, Nilo Romero dirige o documentário Cazuza: Boas Novas com a propriedade de um amigo que conviveu profundamente com o cantor e compositor carioca, falecido em 1990, aos 32 anos.
Cazuza morreu cedo demais, colhido pela epidemia da época, a AIDS, cruel e devastadora. Antes dessa morte sofrida e pública, no entanto, brilhou como um cometa maior na música popular brasileira, tanto pelas canções que foram alguns dos hinos de toda uma geração que se levantava nos estertores da ditadura militar quanto num comportamento que desafiava o bom-mocismo e a caretice.
Desfrutando de proximidade de todo o círculo íntimo de Cazuza, de Roberto Frejat, Léo Jaime, George Israel, Ney Matogrosso, Gilberto Gil à incansável mãe do cantor e compositor, Lucinha, entre outros, e também amparado em farto material de arquivo, Romero constrói uma espécie de álbum onde destila não só a saudade como a intenção de reafirmar o lugar de Cazuza dentro da MPB - que uma certa matéria insidiosa da revista Veja, em 1989, antecedida de uma das mais vergonhosas capas da imprensa brasileira de todos os tempos, procurou negar, afirmando que, não sendo Cazuza nenhum Noel Rosa, sua obra estaria rapidamente esquecida. Previsão absurda, de resto, facilmente desmentida pela sobrevivência do artista na memória tanto de fãs como de colegas.
Escolhendo uma trajetória cronológica nas conhecidas e nem tanto canções de Cazuza, passando por Blues da Piedade, Balada da Esplanada, Codinome Beija-Flor, Todo Amor que Houver nesta Vida, Ritual etc., o diretor detalha alguns processos de criação e circunstâncias de cada uma delas, contribuindo para um insight de sua época. O jornalista Arthur Dapieve concede uma das melhores definições do cantor quando o descreve como “um cara dos anos 1980, saindo da ditadura e experimentando tudo”. Porque uma das coisas que Cazuza expressou e viveu foi exatamente essa entrega a todas as paixões e excessos que lhe pareceram dignos de serem vividos.
Outra boa definição veio do fotógrafo Flávio Colker, autor de algumas das fotografias emblemáticas de Cazuza, quando lembra que ele, mesmo fragilizado, morrendo, “fez questão de não ser usado pela caretice, ele foi ele até o fim”. Recusou, portanto, o papel de vítima, de ser instrumentalizado pelos moralistas de plantão, cantou, compôs, gravou alucinadamente até o último fôlego. Não foi fácil, não foi simples, nem agradável de se ver, mas ele garantiu seu legado, que o amigo e parceiro Nilo Romero agora homenageia, sem pretender dizer nada de novo sobre o parceiro e amigo.
