04/06/2026
Drama Biografia

Monsieur Aznavour

Cinebiografia do cantor e compositor francês Charles Aznavour reconstitui os principais momentos de sua vida, desde a infância pobre, filho de imigrantes armênios, até a paulatina conquista do sucesso nos palcos e no coração de fãs do mundo todo. Na Reserva Imovision.

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O ator francês Tahar Rahim enfrenta na tela seu maior desafio desde que seu talento foi descoberto em O Profeta (2009). Aos 44 anos, ele se transforma até fisicamente para entrar na pele do cantor e compositor Charles Aznavour (1924-2018), vivendo o papel desde a juventude até a velhice. Rahim estudou canto e usa a própria voz para interpretar canções como Sur ma Vie, For me Formidable, La Bohème, She e outros sucessos do repertório do ídolo francês. Também aprendeu a tocar piano e estudou cuidadosamente os gestos do artista, que se tornariam sua marca registrada.

O filme de Mehdi Idir e Le Grand Corps Malade constrói uma base cronológica, dividida em cinco capítulos, para a organização dos muitos fatos da vida longa e turbulenta de Aznavour. Nascido Aznavourian, filho de imigrantes armênios, ainda menino (nessa fase vivido com graça por Norvan Avedissian) ele estreia no palco como ator, sedimentando uma veia artística que nunca parou de crescer. 

Crescendo num ambiente familiar de muita música, ele e a irmã, Aïda (Aaliyah Kerekdjian), desde sempre sua melhor amiga, abraçam naturalmente esse mundo, ainda que não faltem dificuldades. Não só eles são pobres e de uma comunidade estrangeira como atravessam o duro período da II Guerra, quando a França foi ocupada pelos nazistas.

O exercício puro e simples da sobrevivência nestes tempos sombrios coloca à prova a vontade de aço do jovem Charles para tornar-se cantor - apesar de nunca ter deixado de haver quem o lembrasse de que era filho de estrangeiros, não era bonito o suficiente para cantar canções românticas e sua voz seria rouca demais. 

Encontros notáveis também pontuam seu caminho, como com o cantor e pianista Pierre Roche (Bastien Bouillon), seu parceiro dos tempos heróicos da guerra, quando eles sobreviviam apresentando-se em cabarés e clubes de striptease, não raro tendo que deslocar-se de bicicleta, numa época em que as linhas férreas sofriam bombardeios.

Outro encontro luminoso será com a cantora Edith Piaf (Marie-Julie Baup). Igualmente vinda das ruas, como ele, ela o reconhece como um seu irmão, abrindo-lhe portas mas também mantendo-o sob suas rédeas. Além de abrir seus shows, ele seria, por 8 anos, o motorista de Edith, sabidamente um temperamento difícil, até compreender que só voaria mais alto longe da famosa cantora, queridíssima dos franceses.

O filme sublinha de que maneira Charles foi sacrificando um a um seus relacionamentos pessoais, tanto de mulheres quanto de parceiros, para empreender o que ele enxergava como sua estrada para o sucesso - que, durante anos, foi algo que só ele parecia enxergar. Apoiado nessa verdadeira obsessão, na persistência em tornar-se cantor e no apoio sempre incondicional da irmã (na fase adulta, interpretada por Camille Moutavakil), Aznavour foi construindo essa trajetória exemplar, que o filme elabora através de diversos planos-sequência que, em determinados momentos, lembram um carrossel. Uma comparação adequada a uma vida turbulenta, rica de incidentes e vitórias mas marcada também por não poucas tragédias, nenhuma delas capaz de derrotar, porém, o indômito espírito do artista.

Rahim encarna com energia essa figura mítica sem nunca perder de vista sua humanidade, mesmo quando suas escolhas se mostram menos edificantes. Também procura recriar, nos números musicais, o gestual do cantor, que não seguia nenhum outro manual do que sua própria intuição. De todo modo, o saldo final não deixa margem a dúvidas de que ele estava certo, com um legado de mais de 1.000 canções e cerca de 200 milhões de discos vendidos em todo o mundo, gravados não só em francês, como em inglês, armênio, italiano, espanhol, alemão e iídiche. Aznavour queria conquistar o mundo - e conseguiu.

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