Thiago Soares é um dos principais nomes do balé brasileiro, tendo uma história pessoal marcada por peculiaridades. Ao contrário da maioria dos bailarinos e bailarinas, que começam a dançar desde a infância, ele foi só descobrir, inicialmente a contragosto, essa arte aos 15 anos. Vindo da periferia carioca, ele sempre quis ser dançarino de hip hop, e a dança clássica, seguindo aquele velho preconceito, não era bem coisa de homem. O acaso subverteu seus sonhos e ele descobriu que tinha talento para o balé.
Um Lobo Entre Os Cisnes narra de forma ficcionalizada essa trajetória, que culminou numa carreira de sucesso internacional. Dirigido por Marcos Schechtman e Helena Varvaki, o longa narra de forma um tanto romanceada a jornada de Soares, interpretado por Matheus Abreu. O arco narrativo do personagem é, basicamente, a velha história de superação das adversidades e triunfo num mundo que não era o seu.
A grande qualidade do filme é a presença empenhada de Matheus Abreu, que se entrega a um personagem idealizado pelo longa, que faz vista grossa ao seu comportamento tóxico com colegas de balé. Em primeiro lugar, no filme, é preciso deixar claro – bem claro – que Thiago não é homossexual, e, para isso, ele seduz as colegas que cruzam seu caminho. E, claro, foge, educadamente, da investida de outro bailarino no vestiário da academia, onde começa a praticar balé, por conta de uma bolsa – que só aceita, a princípio, porque é um dinheiro de que ele precisa.
Seu talento logo é reconhecido pela diretora do lugar, Raquel (Margarida Vila-Nova), mas ele não tem disciplina, não leva nada a sério, até que ela o apresenta ao coreógrafo cubano naturalizado brasileiro Dino Carrera, interpretado pelo argentino Darío Grandinetti (Fale com Ela). É um embate entre duas pessoas teimosas, mas Dino tem a vantagem de ser mais velho e mais experiente e, com linha dura, tenta guiar Thiago para uma competição de balé na França.
As cenas entre os dois personagens rendem alguns dos melhores momentos do filme, especialmente por conta da ótima atuação dos dois atores. Dos embates, nasce uma espécie de amizade velada. Dino insiste em Thiago, mesmo quando acha que não vale a pena por conta da indisciplina do rapaz.
O roteiro de Camila Agustini e do mexicano Guillermo Arriaga, no entanto, não dá espaço às demais personagens – especialmente as femininas. As mulheres servem apenas como apoio físico ou emocional. As colegas de balé são como escada para ele subir em sua carreira, ou como reafirmação da heterossexualidade dele (duas delas chegam a brigar por ele). Mesmo Raquel é uma personagem que não existe para além de sua função de orbitar ao redor do protagonista.
Fora isso, um dos momentos mais importantes da carreira de Thiago não é mostrado, apenas citado. Não havia orçamento para recriar a cena? Ela é, claramente, importante, afinal, depois disso o filme caminha para seu desfecho. Esse anticlímax retira força da narrativa, que, no final, parece existir apenas com a função de louvar a meritocracia.
