Nome de ponta na nova onda do cinema grego que surgiu no começo da década passada, Athina Rachel Tsangari estreia em longas de língua inglesa com o estranho (como se os outros filmes dela também não o fossem) Harvest, que parte do romance de Jim Crace e tem como cenário uma comunidade remota na Escócia, que parece viver sua própria versão de apocalipse.
Apesar de morar há algum tempo no local, o protagonista Walt (Caleb Landry Jones) ainda enfrenta xenofobia, mesmo contando com a amizade do homem que rege a vila, Mestre Kent (Harry Melling). As condições são severas, mas os moradores locais levam uma vida tranquila, dividindo o tempo entre a plantação, a colheita e festejos.
Chegam novos forasteiros, entre eles o cartógrafo Quill (Arinzé Kene) e Mestre Jordan (Frank Dillane). Eles não são bem recebidos, e a violência surge como resposta à presença desses homens, que logo se tornam alvo do ódio dos moradores. A ação deles, porém, coloca em risco a própria existência da comunidade, numa dinâmica complexa de observação que Tsangari coloca a partir de sua câmera quase documental.
Trabalhando com o renomado diretor de fotografia Sean Price Williams, que filma em 16 mm, introduz-se um estranhamento granulado à imagem, como algo do passado que foi esquecido. As paisagens naturais da Escócia são filmadas com segurança, de forma a montar quase um álbum de retratos da beleza exótica rural do país.
Mas a diretora não está interessada em coisas belas. Seu cinema é o do grotesco, dos estranhamentos que alegoricamente representam nosso presente em relação a movimentos de migração e as respostas nacionalistas a eles. Ela assina um filme marcado pela sensorialidade, mas que também tira o chão dos personagens e do público. Tsangari pode nem sempre acertar aqui, mas que ela não abra mão de suas escolhas formais já é um grande feito.
