Como se alguém tivesse pedido, o Brasil acaba de ganhar sua Lisbeth Salander, na figura da protagonista homônima do longa Atena, dirigido por Caco Souza, a partir de um roteiro de Enrico Peccin. Ela é interpretada por Mel Lisboa, que é sempre uma atriz interessante, mas aqui não encontra um material à sua altura.
A trama se passa, como um letreiro avisa, em Gramado, tomada quase como uma grande metrópole nas imagens insistentes de suas avenidas. O tema do longa é importante – abuso físico e emocional contra mulheres – mas a maneira como o longa lida com isso é quase leviana ao usá-lo como dispositivo para uma trama reacionária sobre vingança com as próprias mãos.
Atena mora em Gramado, leva uma vida supostamente tranquila com sua lojinha de roupas, mas esconde um segredo. Ela é uma vingadora que extermina homens violentos. Seu modus operandi consiste em se aproximar dos algozes, seduzi-los e exterminá-los. O filme começa com uma dessas cenas, que resulta num corpo jogado no mato com a palavra Estuprador escrita no peito dele.
Isso chama a atenção do jornalista Carlos (Thiago Fragoso) – até nisso é como na série de livros e filmes Millennium –, sujeito pouco ético, que suborna testemunhas de crimes para obter informações e, entre outras coisas, começa a investigar os crimes misteriosos contra os homens.
Atena é marcado por um estranho olhar masculino que, claramente, repleto de boas intenções em denunciar abusos contra mulheres, ainda é marcado por um fetichismo da violência. Numa das cenas, por exemplo, um homem bate a cabeça de sua mulher diversas vezes contra o painel do carro. A câmera observa de longe, por um tempo mais longo do que necessário, enquanto a face dela é coberta de sangue.
O filme se contenta em lançar pedaços de narrativa que não parecem se conectar direito, e dessa forma aponta dedos para todos os lados sem se importar em discutir os temas que pretende abordar. Sem personalidade, é um longa de gênero com dificuldade de articular o básico para se assegurar como obra cinematográfica, caindo num vazio canhestro ao tentar justificar a justiça feita pelas próprias mãos.
