O diretor espanhol Carlos Saura apropria-se mais uma vez da dança flamenca para contar uma história trágica, repleta de significados, que vão da vingança feminina pela rejeição do homem amado até o acerto de contas político. Através dos passos do bailado e do som das guitarras do mais conhecido ritmo musical espanhol, Saura conta a história de Salomé, a personagem bíblica que, desprezada por João Batista, vinga-se dele pedindo sua cabeça numa bandeja a Herodes, governante da Galiléia. O filme nasceu de um projeto entre o diretor e a bailarina Aída Gomes, ex-diretora do Balé Nacional da Espanha, que teve a idéia de montar uma apresentação teatral sobre o mito de Salomé, para viajar com sua companhia por todo o país. Junto com os ensaios que deram forma ao espetáculo, Saura teve a idéia de filmá-lo. Os ensaios do balé e a realização do filme são praticamente simultâneos. O que é visto na tela é uma representação, enriquecida pela iluminação e pela montagem cinematográfica, do que foi o espetáculo teatral. A música flamenca está presente em momentos importantes da carreira de Saura. Filmes como Amores Bruxos e Carmen mergulham na dança típica espanhola para contar trágicas histórias de amor. Em Salomé, prêmio de melhor contribuição artística no Festival de Montreal de 2002 e Goya de melhor canção original em 2003, o diretor vai ainda mais longe ao fundir a música e os passos do flamenco às melodias e coreografias sensuais da música oriental. A ousadia e o vigor da música latina casa-se à perfeição aos elementos místicos e provocantes da sonoridade árabe. Num dos momentos mais dramáticos da encenação, mas ao mesmo tempo repleto de erotismo, a bailarina Aída Gómez, no papel de Salomé, se deixa desnudar após a dança dos sete véus, a mesma que a personagem bíblica utilizou para convencer Herodes a entregar-lhe a cabeça de João Batista. Saura revelou, num depoimento recente, que encenou a história de Salomé de maneira totalmente livre mas não deixando de refletir sobre as várias interpretações conhecidas, como a da própria Biblia. Segundo os Evangelhos, Salomé não teria agido de vontade própria, mas sim para satisfazer sua mãe, Herodías, humilhada pelas acusações de João Batista que a condenava por ter abandonado o marido e se unido a Herodes, irmão de seu companheiro. Outra versão que o diretor não ignorou foi a preferida por Oscar Wilde, que via em Salomé a verdadeira instigadora do assassinato de João Batista, convertendo-se numa enamorada da morte. Na montagem, Saura preferiu ficar com Wilde e destacou o aspecto sexual do drama, tratando a decapitação como uma espécie de castração metafórica. "Desejar um ser humano contém sempre um germe, uma ameaça da destruição do ser desejado", filosofou o diretor. Interpretações à parte, a encenação filmada é de uma riqueza visual impressionante, graças aos recursos das filmagens em alta definição e posterior utilização em película de 35 mm. Depois de um prólogo durante os ensaios, que se assemelha a um documentário, onde os bailarinos falam sobre o personagem e fazem revelações pessoais de sua carreira, o balé é iniciado sem uma única palavra. Apenas os passos fortes do flamenco, marcados pelos pés dos bailarinos, embalados pela guitarra de Tomatito, um dos maiores músicos modernos do gênero, conduzem a história. Acompanhamos o jogo de sedução entre Salomé e João Batista, a rejeição da mulher e sua vingança sombria. Mas não vemos uma mulher satisfeita. Ao contrário, depois de receber a cabeça do amado na famosa bandeja, parece sentir um pesar autêntico, quem sabe arrependimento por ter sido tão cruel. Mas, como diz Saura, desejo e morte parecem andar sempre juntos e, mesmo como aberração, são significativos para a cultura ocidental.
