A morte de um unicórnio é (ou deveria ser) um evento único, quando uma criatura mágica e mitológica cessa de existir, um choque tão grande quanto a descoberta de sua existência. O longa escrito e dirigido por Alex Scharfman é uma sátira sobre esse acontecimento, no qual humanos gananciosos tomam o corpo do animal para proveito pessoal e lucros.
Esses animais são admirados desde a Idade Média, com a famosa tapeçaria de Caça ao Unicórnio. Sua dimensão alegórica, envolvendo pureza e raridade, também é forte. O filme de Scharfman, para o bem ou para o mal, encaixa-se perfeitamente na estética e temas do estúdio A24, que se tornou uma grife (um tanto desgastada atualmente, diga-se), com filmes estranhos que aspiram, muitas vezes, a ser mais do que têm direito, como é o caso aqui.
O título não tem nada de figurado é, na verdade, bastante literal, quando o advogado Elliot Kintner (Paul Rudd) atropela e mata um unicórnio numa estrada deserta enquanto viajava com a filha, Ridley (Jenna Ortega), rumo à casa de um cliente riquíssimo. Quando a garota tenta ajudar o animal moribundo, ela faz uma conexão mística com o unicórnio ao tocar o chifre dele. Seu pai a interrompe ao espancar até a morte a criatura com uma chave de roda espalhando sangue azul por todo lado.
A questão é que os unicórnios não morrem tão facilmente, e espanta a todos quando se contorce e faz barulhos no porta-malas do carro de Elliot, na casa de seu cliente, um figurão da indústria farmacêutica em estágio terminal de câncer, Odell Leopold (Richard E. Grant). Logo se descobre que o sangue do animal tem poderes de cura, salvando a vida do empresário, que vê na substância uma nova fonte de lucros exorbitantes.
Mas os unicórnios não são tão gentis como se imagina, e os pais do animal aparecem para salvar seu filho e vingar-se de quem quase o matou. Detalhe: os chifres não são meros enfeites, mas uma arma.
O filme transita entre uma sátira de classe social e o terror, protagonizado por monstros. Os ricos são ridículos e poderosos, mas não imunes à força dos unicórnios – perto deles, todos somos pobres mortais. Se há boas ideias aqui e ali, há também bastante obviedade no filme, em especial na aparência das criaturas mitológicas, que não mudaram nada nesses cinco séculos desde a tapeçaria.
