Como era de esperar, não haveria melhor lugar no mundo do que o Festival de Brasília 2024, quando ocorreu a première do documentário No Céu da Pátria Nesse Instante. No longa, a cineasta carioca Sandra Kogut se arrisca a investigar acontecimentos muito recentes do País, como as eleições de 2022 e os tumultos do 8 de Janeiro, para tomar o pulso de uma realidade dividida, polarizada, contando com personagens de todos os tipos: de funcionários anônimos da Justiça Eleitoral da Ilha do Marajó (PA), que se desdobram para que as eleições ocorram a contento, a candidatos como Marcelo Freixo, no Rio de Janeiro, passando por um comerciante e uma família bolsonaristas.
Enfileirando sequências da campanha dos dois lados, a angústia das apurações, a comemoração dos petistas nas ruas, a posse de Lula e também imagens assustadoramente próximas das depredações do 8 de Janeiro, a cineasta carioca capta o carrossel de emoções que varre o Brasil, colocando essa dúvida: será que conseguimos estabelecer um território comum para que todas as posições consigam conversar?
E não faltou catarse na plateia do Cine Brasília, que respondeu ao filme, respirou junto, vibrou, gritou e cantou a plenos pulmões na parte final, junto com Juliano Maderada, seu hit “Tá na Hora do Jair Já Ir Embora” - que estava sendo composto enquanto o filme se desenvolvia.
Certamente, este é o primeiro mas não deve ser o último filme a respeito de todos estes acontecimentos tão vitais para o País, realizado ainda a sangue quente, sem a perspectiva do distanciamento temporal, mas com a vantagem da memória ainda tão viva - e essa memória é que produz o engajamento do público a No Céu da Pátria Nesse Instante. Um mérito é a escolha de personagens que são capazes de carregar a narrativa com suas atitudes, idéias e emoções - inclusive o vendedor da avenida Paulista, que vende toalhas tanto de Bolsonaro quanto de Lula mas é bolsonarista (“aqui eu sou loja”, diz ele aos compradores de toalhas de Lula) e, mais ainda, a família bolsonarista, em que o pai é caminhoneiro e promete que “se Lula vencer, vendo meus dois caminhões e saio do País”. Essa família, aliás, é o melhor retrato de uma classe média evangélica, que acredita em fake news como a fraude nas urnas eletrônicas - embora não consiga explicar de onde vem essa convicção num esclarecedor diálogo com a diretora -, movida por pregações de seu pastor, que mistura no mesmo discurso uma toada anticomunista que cita o TSE e o Supremo Tribunal Federal.
Tanto os bolsonaristas quanto os petistas, como a delegada do partido que fiscaliza locais de votação e a militante da campanha de Freixo e André Ceciliano, no Rio, são ouvidos com honestidade, sem caricaturização, traduzindo a clara intenção de entender como é que se estabeleceu esse muro, essas realidades paralelas que não encontram um denominador comum para se ouvir e conversar. Mas, além disso, No Céu da Pátria Nesse Instante é também um eloquente retrato de tantas pessoas anônimas que, com sua atuação miúda, cotidiana, invisível, constróem a democracia no Brasil.
Do Festival de Brasília, o filme saiu com dois prêmios: melhor montagem (Renata Baldi e Sandra Kogut) e o Prêmio Especial do Júri.
