18/07/2026
Terror

A Hora do Mal

Numa pequena cidade, durante uma noite normal, um grupo de crianças saem sozinhas de suas casas às 2:17 da madrugada. Em comum, todos são alunos da nova professora Justine. Estranhamente, apenas um aluno da sala dela não desapareceu.

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Quando, a certa altura em A Hora do Mal, uma metralhadora gigante aparece no céu de uma pequena cidade, e nela estão inscritos o número 2:17, e um homem grita desesperadamente o nome de seu filho desaparecido: “Matthew! Matthew!”, é irresistível olhar na Bíblia, no versículo 2:17, o que Mateus diz. E não é surpresa que o versículo e o seguinte são sobre uma mãe chorando a morte de seus filhos, ordenada por Herodes. 

Esse é só um exemplo da engenhosidade do filme, escrito e dirigido por Zach Cregger, que já mostrara muita destreza com os meandros do horror no excelente Noites Brutais. Aqui, o desaparecimento de um grupo de crianças, às 2:17 da madrugada de uma noite qualquer é o ponto de partida. O sumiço é narrado por uma voz infantil na introdução da trama, que ainda dá duas informações importantes: as crianças eram todas alunas do 3º ano da professora Justine (Julia Garner), e apenas um aluno dessa turma, Alex (Cary Christopher), não sumiu.

A partir daí, com um rigor formal que cria uma tensão absurda, Cregger monta uma fábula sombria sobre abuso contra crianças. Num primeiro momento, soa muito como uma alegoria sobre atiradores em escolas, que matam os colegas que os maltratam ou esnobam. A reunião dos pais desesperados em busca de respostas, acusando a professora de omissão ou até culpa, dá uma clara impressão de que esse é o tema. 

Mas o diretor tem algumas complicações a introduzir. O filme é dividido em capítulos, que levam nomes de personagens, começando com a professora Justine, seguindo com o pai de Matthew, Archer (Josh Brolin), e com outras figuras-chave, e é melhor não dizer quem são para não quebrar as surpresas. Mas vale ressaltar que cada capítulo acrescenta novas informações, narra outras já conhecidas por outro ponto de vista, acrescentando ainda mais complicações formais ao longa. É como se Robert Altman, em seus filmes-corais, fizesse um terror – que tanto assusta quanto até comove. 

Justine, por exemplo, é nova na cidade. Está tentando lidar com traumas do passado, que envolvem o policial Paul (Alden Ehrenreich), por quem ainda tem sentimentos. Ele resiste bravamente à moça e ao alcoolismo, por um período, mas cede, e um novo turbilhão de acontecimentos são desencadeados. O empreiteiro Archer, por sua vez, obviamente ainda sofre com o desaparecimento do filho, e assiste às imagens da câmera de segurança insistentemente – até que começa a encontrar pistas. Seu filho, e as outras crianças, saíram de casa correndo com os braços abertos como mísseis teleguiados na mesma direção. 

Ao descortinar a vida banal de uma pequena comunidade urbana estadunidense, Cregger mostra as dinâmicas sociais num lugar onde quase todos se conhecem. Por metade do filme, ele não abre mão da escalada de medo e angústia, não deixando espaço nem pistas para a resolução. Tudo é tão bem-construído narrativamente que os 129 minutos do longa se justificam; não há uma cena fora do lugar.

A entrada de uma nova personagem, na segunda metade, acrescenta uma nova camada ao tom camp, algo grotescamente cômico. Trata-se da tia Gladys (Amy Madigan), figura de visual peculiar – novamente, melhor não dar spoilers – parente de Alex e sua família. Não será surpresa se tia Gladys se tornar uma fantasia de Halloween nos próximos meses. 

A tensão pode se dissipar um pouco, e, como em muitas obras que conseguem criar esse tipo de aflição, a resolução parece um tanto frustrante - mas, olhando de perto, não é. Novamente, Cregger tem seu tempo próprio, lançando ainda mais dúvidas antes da caminhar para a conclusão. Com piscadelas a O Iluminado e Willow – Na Terra da Magia, A Hora do Mal é um tipo de terror que convida a revisões, transitando entre o psicológico e o visual – há imagens bem impressionantes.

O filme se impõe como um dos acertos do gênero – e, ao lado de Pecadores (outro que também se vale dos tropos do terror para discutir algo bem sério), um dos melhores longas do ano. 

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